60 Anos de O Senhor dos Anéis

Em março de 1955, Tolkien responde para Dora Marshall, uma leitora de O Senhor dos Anéis:

‘’Tive uma grande dificuldade (levou vários anos) para conseguir publicar minha história, e não é fácil dizer quem está mais surpreso com o resultado: eu ou os editores! Mas continua um prazer inesgotável para mim ver minha própria crença justificada: a de que o “conto de fadas” é realmente um gênero adulto e para o qual existe um público faminto.’’

Tolkien realmente sacia e nos presenteia sempre com esse ‘’alimento’’ que engrandece a alma e mente. O Senhor dos Anéis foi um marco para a literatura mundial.
Quando foi publicado O Hobbit, Tolkien ainda estava influenciado pela ideia de que os contos de fadas eram naturalmente dirigidos para crianças, pois ele ainda tinha seus filhos como tais. Porém, o desejo de dirigir-se às crianças nada tinha vínculo com a história em si, como era ou o desejo de escrevê-la. Nisso, efeitos no modo de expressão e no método de narrativa mostram-se diferentes nas duas obras, O Hobbit e O Senhor dos Anéis

Mas em O Senhor dos Anéis, a obra não era especialmente para crianças ou qualquer outra classe, mas para qualquer um que apreciasse uma longa e épica história do mesmo jeito que o autor apreciava.
Com o objetivo primário de escrever uma história que instigasse, agradasse, e na situação certa, comovesse, a obra certamente recebeu seu devido crédito literário por seu mundo imaginário. Com a prerrogativa de entreter, mas sendo uma obra dentro do seu vasto legendarium, é um conto de fadas – de acordo com seu ensaio On Fairy-Stories – pois o conceito do professor era que o conto de fadas possui seu próprio modo de refletir a verdade, de maneira diferente da sátira, da alegoria ou do próprio ‘’realismo’’ bem mais presente.

Tudo começa em um almoço marcado em outubro de 1937 pelo seu editor Stanley Unwin sobre uma ‘’continuação’’ de O Hobbit. Tolkien o mostra alguns de seus escritos, entre eles As Cartas do Papai Noel, a versão em prosa do Quenta Silmarillion, a versão inacabada d’A Aventura de Beren e Lúthien e já tinha oferecido anteriormente Mr. Bliss. Stanley não descartou os escritos, mas respondeu em dezembro do mesmo ano que necessitava de uma história sobre hobbits. No mesmo mês e aproveitando as férias de natal, ausência de provas para corrigir e poucas tarefas administrativas, o professor termina o que seria a primeira versão do quase não alterado primeiro capítulo Uma Festa Muito Esperada.
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Combinado que fosse lido pelo filho de Stanley, Rayner Unwin (o mesmo que leu e aprovou O Hobbit), o primeiro capítulo é enviado e é considerado praticamente como um ‘’capítulo extra’’ de O Hobbit, agradando a editora.

Começa então a ser criada a espinha dorsal da obra, onde o anel teria importância central no enredo, Sauron, Senhor do Escuro começam a ter maior relevância, assim como a importância do bem e o mal na Terra Média. É assim que começa um dos capítulos mais explicativos e âncoras da trama: A Sombra do Passado.
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Escrevendo para Caroline Everett, Tolkien explica um pouco sobre essa fase:

‘’A idéia geral do Senhor dos Anéis certamente estava em minha mente desde um estágio inicial: isto é, desde o primeiro rascunho do Livro I Capítulo 2, escrito nos anos trinta. De tempos em tempos eu fazia esboços grosseiros ou sinopses do que viria a seguir, imediatamente ou mais adiante; mas estes raramente eram de muito uso: a história desenrolou-se por si mesma, por assim dizer. A amarração das pontas foi alcançada, até onde pode ser alcançada, por uma reescrita constante do fim para o início. Eu tinha um calendário de muitas colunas com datas e um breve relato de onde todos os atores ou grupos principais estavam em cada dia e o que estavam fazendo.’’
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Esse seria um início bastante fértil para todo os Inklings (Lewis também acabara de editar dois livros e escrito Além do Planeta Misterioso).

Em carta para Para Christopher Bretherton em 1964, ele explica que ’o anel mágico era a única coisa óbvia em O Hobbit que poderia ser relacionada com minha mitologia. Para ser o fardo de uma história grande, teria de ser de suprema importância. Liguei-o então à referência (originalmente) deveras casual ao Necromante, final do Cap. vii e Cap. xix, cuja função dificilmente era mais do que fornecer uma razão para Gandalf ir embora e deixar Bilbo e os Anões para se defenderem sozinhos, o que foi necessário para a história. De O Hobbit também são derivadas a história dos Anões, Durin, seu ancestral primordial, e Moria; e Elrond. A passagem no Cap. iii relacionando-o aos Meio-elfos da mitologia foi um feliz acidente, devido à dificuldade de constantemente inventar bons nomes para novos personagens. Dei-lhe o nome Elrond casualmente, mas como este vem da mitologia (Elros e Elrond, os dois filhos de Earendel), tornei-o meio-elfo. Apenas em O Senhor dos Anéis ele foi identificado com o filho de Earendel, e assim o bisneto de Lúthien e Beren, um grande poder e um Portador de Anel. Outro ingrediente, não mencionado antes, também entrou em operação em minha necessidade de fornecer uma grande função para Passolargo-Aragorn. O que posso chamar de minha assombração de Atlântida. Essa lenda ou mito ou lembrança turva de alguma história antiga sempre me incomodou. Ao dormir eu tinha o terrível sonho da Onda inelutável, ou saindo do mar calmo, ou elevando-se sobre as verdejantes terras do interior. Ele ainda ocorre ocasionalmente, apesar de agora exorcizado por escrever sobre ele. Ele sempre termina em capitulação, e acordo ofegando ao sair de águas profundas. Eu costumava desenhá-lo ou escrever poemas sobre ele.’’
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Com esses elementos-âncora, o acadêmico de Oxford começa a destrinchar a sua obra de maior sucesso.

Entretanto,, muitos momentos interromperam todo o processo de criação da obra, como o falecimento de seu amigo Eric Gordon (1937), as muitas provas para corrigir e seu trabalho constante, a vinda de uma guerra mundial, Michael Tolkien doente (1941). Até ali, não existiam Lothlórien, Rohan, e Barbávore era uma figura hostil que aprisionava Gandalf ao invés de Saruman.

Para Tolkien, a segunda metade de 1943 foi o pior momento para a criação de sua grande história. Capturado pelos pequenos detalhes, ficou confuso com enredo que criaria. Nesse momento ele escreve o conto ‘’Folha por Niggle’’ que, segundo Priscilla Tolkien seria um retrato de maneira catártica, mas de sentido libertador, da situação de sua obra inacabada durante vida.

No início de 1944, o professor segue firme e chega no final de As Duas Torres, com Aragorn e Gandalf na frente das batalhas e Merry e Pippin engajados no enredo. Mas no segundo semestre desse ano, Tolkien paralisa seu livro outra vez, e por mais de um ano (o maior hiato desde que havia começado).
O término da guerra em 1945, a volta de seu filho Christopher para a graduação, nomeação para professor de Língua e Literatura Inglesa em Merton, e a venda da casa em Northmoor Road e a mudança para a pequena, moderna casa com um não confortável escritório no número 3 da Manor Road, foram alguns dos principais motivadores deste hiato.pony

Mesmo assim, termina seus escritos em 1947 e passa os próximos dois anos reescrevendo, editando, e amarrando as histórias, voltando várias vezes na narrativa até perceber que estava pronto para ser lido. E C.S.Lewis leu, mesmo já ter ouvido a maior parte da obra nas reuniões dos Inklings. Tanto o criador de Nárnia quanto seu irmão Warnie acharam a história incrível!

Para publicação houveram mais dificuldades, como: Tentativa de ter o Silmarillion publicado junto com O Senhor dos Anéis; Não aceitação do livro ser dividido em três; Idas e voltas com o editor; Mudanças de moradia; carga intensa de trabalho; revisões do livro e outros. Até que Tolkien aceitou a divisão da obra em três volumes, revisando mais uma vez, criando capas e sobrecapas e com a ajuda do filho Christopher no preparo dos mapas. Tolkien sabia que essa seria uma obra maior do que ele esperava, e essa consciência se tornou realidade. O ciúme pela obra em especial era nítido através do acompanhamento direto e constante para qualquer alteração, edição, rearranjo ou resumos do texto, sempre pedindo para os editores que essa preocupação fosse levada em consideração.
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No meio de tantos obstáculos, a obra nasceu com a maestria de um grande mito. Publicada em 29 de Julho de 1954 e chegando em agosto do ano nas livrarias, O Senhor dos Anéis – A Sociedade Do Anel tornou-se um marco para a literatura e o gênero.

Mais que uma obra viva, a obra é um mito refletindo a verdade através do conto de fada. Esses 60 anos de O Senhor dos Anéis é um reflexo que ele vive através de sua criação assim como a vida dos Eldar. Sessenta anos é idade de uma criança se relacionada a imortalidade em que se engaja.

Finalizamos com uma carta de 1955 para Houghton Mifflin Co., que expressa a gratidão de Tolkien pela história da demanda do Um Anel e o destino dos Homens contada pelos hobbits:
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’Nada me surpreendeu mais (e acredito que aos meus editores) do que a recepção dada a O Senhor dos Anéis. Porém, essa obviamente é uma fonte constante de consolo e prazer para mim. E, posso dizer, um pedaço de boa sorte singular, muito invejada por alguns de meus contemporâneos. Pessoas maravilhosas ainda compram o livro, e para um homem “aposentado” isso é agradável e confortante.’’

Obrigado, Professor Tolkien.

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Bibliografia:
CARPENTER, Humphrey; TOLKIEN, Christopher. As Cartas de J.R.R.Tolkien. Curitiba: Arte & Letra, 2006
CARPENTER, Humphrey. J.R.R.Tolkien: Uma Biografia. São Paulo: Martins Fontes, 1992
TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. São Paulo: Martins Fontes, 2002
WHITE, Michael. J.R.R.Tolkien - O Senhor da Fantasia. Rio de Janeiro: Darkside, 2013

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