Os Prós e Contras da Trilogia de O Hobbit

Texto escrito por Jesse Schedeen.

Os fãs de O Senhor dos Anéis têm muitos motivos para ficarem empolgados esses dias, já que em dezembro haverá o lançamento da primeira parte da adaptação para o cinema de O Hobbit, do diretor Peter Jackson. No entanto, nas últimas semanas rumores cresceram falando que a "duologia" de Jackson discretamente se expandiu para uma trilogia. Esses rumores foram confirmados ontem (http://www.ign.com/articles/2012/07/30/the-hobbit-3-officially-announced), quando Jackson anunciou que adicionará mais um filme ao seu quadro já bastante ocupado.

A grande questão agora é saber se este anúncio é motivo de mais empolgação ou de preocupação. Será que um livro realmente precisa de três filmes para ser devidamente adaptado? Será que o público irá tolerar ter que esperar mais um ano para a saga do hobbit Bilbo Bolseiro chegar a uma conclusão? Neste texto, exploraramos alguns dos prós e dos contras em tratar O Hobbit como uma trilogia de filmes, bem como as escolhas narrativas que Jackson terá de enfrentar ao se preparar para começar a filmar as cenas adicionais no ano que vem.

Como Dividir a Trilogia

Uma das primeiras perguntas que surgiram após o anúncio de ontem foi "Como eles vão dividir os três filmes?". O processo de adaptação foi muito mais direto com a trilogia de O Senhor dos Anéis. Cada livro se tornou a fonte de um filme. Com O Hobbit, no entanto, um único livro está sendo dividido em três partes separadas. E dado que O Hobbit é significativamente menor do que qualquer dos três volumes de O Senhor dos Anéis, muitos temem que sua história seja estendida demais.

Obviamente, muito material terá de ser adicionado, material esse que será discutido detalhadamente mais adiante. Mas simplesmente em termos de dividir o livro o mais clara e elegantemente quanto possível em três partes, Jackson pode estar em uma posição melhor do que ele estava com uma "duologia". De forma muito similar ao filme Harry Potter e as Relíquias da Morte, não há uma marca ideal na metade do livro. Com uma "duologia", o diretor está fadado à duas alternativas. Ou ele termina o primeiro filme de uma maneira fraca, sem um grande conflito para impulsionar a história para o seu clímax; ou ele pode empurrar uma quantidade desproporcional de material para um dos dois filmes. No caso de As Relíquias da Morte, os escritores optaram por esta última abordagem. A maior parte do livro foi adaptada na primeira parte, enquanto a batalha final entre Harry Potter e Voldemort foi expandida para preencher a segunda.

O formato de filme de três partes coloca O Hobbit em uma posição melhor. Imaginamos o primeiro filme alcançando o seu clímax com a batalha nas Montanhas Sombrias e fatídico encontro de Bilbo com Gollum. Até onde sabemos, nenhum material visto no primeiro trailer acontece para além deste ponto [Se bem que algumas das cenas nas quais Gandalf aparece podem ser ambientadas em Dol Goldur]. Pode ser que o segundo filme explore a contínua jornada da companhia através das terras além das Montanhas, o encontro com Beorn, e sua difícil jornada pela Floresta das Trevas. O clímax da segunda parte focaria simultaneamente em como Bilbo e os anões fogem dos Elfos da floresta, e na batalha de Gandalf com o Necromante em Dol Goldur. A partir daí, o terceiro e último capítulo poderia focar na chegada à Montanha Solitária, na Batalha dos Cinco Exércitos, e na jornada de Bilbo de volta para casa.

Outra opção seria a manter o formato da "duologia" e enfrentar um quadro completamente separado de material no terceiro filme. A terceira parte poderia acontecer entre as histórias de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis, fazendo a ponte entre as duas e explorando os acontecimentos daquele período de 50 anos. No entanto, esta opção não parece provável. Jackson declarou que um adicional de dois meses de filmagem será necessário no próximo ano para completar a trilogia. Ao mesmo tempo que essa é uma quantidade considerável de cenas extras, não parece ser suficiente para criar um filme totalmente novo.

Mais Gandalf

Embora ambientado muitas décadas antes de O Senhor dos Anéis, a história de O Hobbit inclui uma série de rostos familiares para os fãs da princiera trilogia. Além do mais jovem e menos mundano Bilbo Baggins de Martin Freeman, o personagem mais significativo que retorna é Gandalf. Mais uma vez, o mago idoso chega ao Bolsão para impelir o hobbit que lá mora em uma longa e estranha jornada, que mudará sua vida.

Gandalf serve como um guia e protetor para Bilbo e os anões na primeira parte de sua jornada. No entanto, ele praticamente sai da história depois de um certo ponto, não retornando até o clímax do livro, para dar sua típica oportuna assistência em batalha.

Um benefício possível ao expandir a adaptação para uma trilogia é que isso permite que Jackson foque muito mais sua atenção nas façanhas de Gandalf. O livro é bastante enigmático sobre o que essas façanhas envolvem, apenas revelando que Gandalf tinha preocupações próprias e que ele estava preso a uma batalha com o Necromante de Dol Goldur ao mesmo tempo em que Bilbo e os anões escapavam do cativeiro em outra parte da Floresta das Trevas. Com o filme, gostaríamos que fosse tomada uma abordagem narrativa mais paralela. Ao invés de contar toda a história do ponto de vista de Bilbo, as aventuras de Gandalf podem servir como um contraponto.
Felizmente, não precisamos ficar muito preocupados com a falta de material que origine a inspiração para as cenas de Gandalf. Enquanto O Hobbit em si pode não contar muito sobre as aventuras paralelas de Gandalf, os apêndices de Tolkien e suas histórias inacabadas esclarecem muito mais sobre estes eventos. Em especial, a história "A Busca de Erebor" nos Contos Inacabados lança uma nova luz aos eventos de O Hobbit. Lá, Gandalf narra seu desejo de eliminar o dragão Smaug, que seria um potencial aliado de Sauron, e seus verdadeiros motivos para querer incluir Bilbo no grupo de viagem de Thorin. Este conto funciona como um contraponto mais sério às próprias lembranças de Bilbo.

O que realmente nos preocupa é que o filme pode exagerar na liberdade criativa com Gandalf para fazer dele um personagem mais identificável. Por exemplo, algumas das cenas no primeiro trailer parecem sugerir que Gandalf e Galadriel têm algum tipo de vínculo mais profundo, o que certamente não é corroborado por qualquer coisa que Tolkien escreveu. Bilbo deveria ser o herói de todos nos filmes, enquanto Gandalf seria o grande defensor da Terra-Média.

Revelando o Necromante

Como mencionado, o conflito de Gandalf com o Necromante de Dol Goldur constitui uma parte significativa do conflito em O Hobbit, apesar dos leitores nunca experimentarem a batalha diretamente. Mas quem é o Necromante, e por que Gandalf está tão preocupado com ele?

No fim das contas, o Necromante é ninguém menos que Sauron, o vilão sombrio que ameaçou a Terra-Média ao longo da trilogia de O Senhor dos Anéis. Nesta fase na linha do tempo de Tolkien, Sauron ainda está fisicamente fraco e tentando consolidar o poder que perdeu em sua guerra contra a Última Aliança. Séculos antes dos acontecimentos de O Hobbit, Sauron chegou à Floresta das Trevas como "uma sombra de medo", estabelecendo lá sua fortaleza em Dol Goldur. Leva muitos anos para que Gandalf descobra com certeza que o Necromante e Sauron são a mesma pessoa, e mais tempo ainda para que ele reúna aliados como Saruman, Elrond e Galadriel para ajudá-lo expulsar Sauron daquela região. Como os filmes de O Senhor dos Anéis mostraram, esses esforços revelaram-se demasiado poucos, e já tarde demais.
Se os filmes deveriam mostrar um maior foco em Gandalf do que o livro, então naturalmente veremos mais do Necromante também. Isso cria um desafio interessante para Jackson. Sauron é um vilão definido muito vagamente em todos os escritos de Tolkien. Em suas obras acabadas, Sauron nunca é mais do que uma ameaça iminente, sem rosto. Os filmes de O Senhor dos Anéis romperam com a tradição ao mostrarem aos espectadores a aparência de Sauron de forma direta. Quão mais deve Jackson romper com a tradição? Será que vamos ver a aparência do Necromante antes de ele ter reestabelecido seu pleno poder? Será que ele falará diretamente com Gandalf e com os membros do Conselho Branco? Será que ele terá uma personalidade distinta?

As possibilidades são intrigantes, mas há bastante espaço para erro ao focar muito no vilão. Sauron é um personagem que é definido por sua mística. O fato de que ele é uma presença tão vaga e não vista nas histórias de Tolkien é parte de seu charme. Ao moldar Sauron em um personagem mais distinto, Jackson corre o risco de destruir esse charme. De forma similar à origem do Coringa no Cavaleiro das Trevas, algumas coisas ficam melhores permanecendo desconhecidas.

Amarrando a Franquia

Os habitantes da Terra-média tendem a ter uma expectativa de vida maior do que a média do ser humano contemporâneo. O benefício é que, mesmo que os filmes de O Hobbit se passem décadas antes de O Senhor dos Anéis, muitos de nossos antigos personagens favoritos podem perfeitamente dar uma paradinha para fazer uma aparição. Além de Gandalf, sabemos que personagens como Galadriel, Elrond e Légolas deverão parecer em O Hobbit. Enquanto isso, Elijah Wood e Ian Holm estão reprisando seus papéis como Frodo Bolseiro e o Bilbo já idoso, respectivamente, em uma série de sequências que se passam no período dos filmes de O Senhor dos Anéis.

Mais filmes baseados em O Hobbit significa mais espaço para esse tipo de referência aos filmes anteriores. E, naturalmente, isso pode ser uma coisa boa ou ruim dependendo de como Jackson escolher lidar com o material. Os nerds que temos em nós adoram a ideia de referências complementares a esses personagens secundários. E com a necessidade de expandir o enredo de O Hobbit para preencher de forma legítima os três filmes, este tipo de material pode ser a melhor opção. Ao invés de inventar novos obstáculos para Bilbo e os anões superarem, novas cenas que explorem o papel de personagens como Galadriel podem resultar em mais acréscimos elegantes.

Mas, mais uma vez, nos preocupamos com a direção que algumas dessas cenas podem tomar. Há sempre espaço para erros quando se afasta demais do material original. Por outro lado, preferimos ver Jackson errar no lado da experimentação do que entregar três filmes dolorosa e rigidamente ligados ao material de origem . As mesmas pessoas que ridicularizaram os filmes de O Senhor dos Anéis por mostrarem nada mais do que pessoas andando teriam motivo para muita piada.
Jackson falou especificamente sobre seu desejo de explorar parte do material que está nos apêndices de O Retorno do Rei. Esse material explora vários detalhes da história da Terra-Média nos anos que antecederam e seguiram as histórias em O Senhor dos Anéis, incluindo a caçada de Aragorn por Gollum. De fato, Jackson mencionou a caçada como um material que ele gostaria de explorar nos filmes. No entanto, que caçada ocorre durante os primeiros capítulos de A Sociedade do Anel. Aragorn é apenas um rapaz durante os eventos de O Hobbit. Significaria isso que as sequências nas quais aparecem Bilbo e Frodo seriam apenas a ponta do iceberg em uma proposta de Jackson de mudança de cronologia?

Esperamos que não. No fim das contas, é preciso haver uma distinção entre a trilogia de O Hobbit e a trilogia de O Senhor dos Anéis. Esses três novos filmes têm de ser capazes de se manter por conta própria, além de servir como prelúdios dignos. Ênfase demais em fazer a ligação entre as duas histórias só vai atrapalhar a história de O Hobbit. A pior hipótese é que o terceiro filme de O Hobbit conclua o conflito com Smaug no meio do filme e dedique o restante do tempo para construir as bases para a sociedade do anel. Não queremos uma série de desfechos rápidos, ao estilo de O Retorno do Rei. Queremos um clímax empolgante seguido por um breve e premeditado desfecho.

O Futuro da Franquia

Reações às notícias sobre O Hobbit se tornar uma trilogia foram diversas. Muitos fãs convenceram-se de que Jackson parece motivado por seu amor pela franquia e seu desejo de contar a melhor história possível, ao invés de enxergarem o motivo da mudança na pressão por parte do estúdio. Outros continuam convencidos de que a Warner Bros organizou a decisão, a fim de preencher o vazio deixado por franquias lucrativas e agora já concluídas, como Harry Potter e a trilogia do Batman de Christopher Nolan.

No final, as motivações por trás da decisão importam menos do que sua execução. Para melhor ou para pior, a maneira como Jackson manipulará a trilogia de O Hobbit determinará o futuro curso da Terra-Média em Hollywood. Será que espectadores casuais manterão o interesse pela história durante todo o período até o Natal de 2014? Será que um ano é tempo demais para esperar entre cada estreia?

O sucesso de Jackson ao lidar com os personagens secundários, bem como com a adição de material não encontrado dentro da própria história de O Hobbit. Esses serão os fatores que determinarão o quão adequadas são as histórias de Tolkien para que sejam exploradas novamente no futuro. Podem os filmes serem bem sucedidos ao explorarem personagens e conflitos não muito bem-definidos? O sucesso de Jackson em adicionar elementos e em preencher a história de O Hobbit pode preparar o caminho para mais filmes dedicados a expandir ainda mais a Terra-média. Gostaríamos muito de ver filmes dedicados à primeira guerra contra Sauron, aos principais eventos de O Silmarillion, ou mesmo a uma verdadeira sequência para O Senhor dos Anéis. Mas primeiro os fãs precisam provar que é possível para um filme fazer justiça à franquia por se aventurar em um território mais desconhecido.

 

As opiniões aqui descritas não correspondem necessariamente as opiniões dos membros da Toca CE ou do Conselho Branco.

Jesse é um escritor para IGN Comics e vários outros canais da IGN. Siga Jesse no Twitter (http://twitter.com/jschedeen) ou encontre-o no IGN (http://people.ign.com/Kicksplode).

Você pode ver o texto original, em inglês, aqui.

3 ideias sobre “Os Prós e Contras da Trilogia de O Hobbit

  1. legal a matéria…
    Diz ai que ” algumas das cenas no primeiro trailer parecem sugerir que Gandalf e Galadriel têm algum tipo de vínculo mais profundo, o que certamente não é corroborado por qualquer coisa que Tolkien escreveu.” Em silmarillion, Galadriel deixa claro sua preferencia por Gandalf para ser lider do conselho contra o necromante, ela o elogia inumeras vezes, e conversam entre si a sós.

    • Muito legal, Felipe! Apesar de alguns pontos de crítica do texto, estou otimista com o filme. So far, so good, eu acho (apesar da elfa-Kate-de-Lost e da controvérsia da aparência de alguns anões… rsrs).

  2. Lembrando que este texto não reflete necessariamente a opinião dos membros da Toca CE. É apenas a tradução de um texto publicado originalmente em inglês.

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