42 anos sem Tolkien: Amor, Vida e Morte.

Podemos pensar sobre a vida sem pensar na morte? E ao contrário, seria? Nesses 42 anos sem a presença física do pai da literatura fantástica moderna, gostaríamos de expor algumas palavras do ilustre professor para refletirmos.

Ao final de sua vida, J. R. R. Tolkien foi impossibilitade por algumas semanas de usar seu braço direito. Ele confessou ao seu editor: “Percebi que não ser capaz de usar uma caneta ou um lápis é para mim tão frustrante quanto seria a perda do bico para uma galinha”.

Essa já seria uma grande e triste noção da morte: a incapacidade (ou possibilidade) de não poder fazer o que realmente ama.
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Tolkien tinha uma grande noção da morte
, desde a perda do pai e sua ausência prematura, pois ele tinha apenas 4 anos, e principalmente a morte de Mabel, sua mãe, que desmaiou fatalmente em sua frente, com 12 anos de idade, e do irmão, com 10 anos. Nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, em que Tolkien travou a Batalha de Somme, ocorreu a maior perda diária na história do exército britânico, sendo 19 mil soldados ingleses mortos e 60 mil feridos no primeiro dia. Um dos amigos mais próximos de Tolkien estava entre os abatidos: Rob Gilson.
Logo viria outro amigo próximo (também do T.C, S.B), morto por estilhaços que gangrenaram todo o corpo: G.B. Smith. Mortes estas que, assim como a de outros companheiros de guerra, misturado ao odor de sangue e gritos de dor, balas e explosões foram efetivos ao atingir os sentimentos e a mente do professor.

Amigos como C.S. Lewis, com quem Tolkien compartilhava a formação do mundo da Terra-Média e muitos outros entes queridos, como sua amada esposa Edith, por quem desde jovem nutriu e conviveu com amor o ''até que a morte nos separe'', também compõem a visão dele sobre a perda, a dor e a morte.

Um reflexo aplicado é encontrado em suas obras, onde ele explicitamente fala:

''(...) A busca pelo poder é apenas o motivo-poder que coloca os eventos em andamento, e creio ser relativamente sem importância. A história diz respeito principalmente à Morte e à Imortalidade, e às “fugas”: longevidade serial e memória cumulada.''
(As Cartas de J.R.R.Tolkien, Carta n° 211)

O conflito da vida e morte que começa nas Terras Imortais. De Valar e Elfos até a finidade dos homens, onde Tolkien descreve com mistério, os Salões de Mandos e os Círculos do Mundo. Sua visão cristã e de fé - muito fundamentada pela mãe - era a principal responsável por fortalecer o laço com a vida na reflexão da morte. Além disso, existe a dádiva da ''imortalidade'' dos elfos e da perecidade vital dos homens (onde os mais nobres númenorianos poderiam escolher o dia para morrer, com honra e virilidade), que nas providências da vida, em meio as lutas, provações e dificuldades, mostra que aquilo que faz sua morte é a maneira como vive.

Em outra carta ele fala:
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''(...)Mas devo dizer, caso perguntado, que a história não é realmente sobre Poder e Domínio: isso apenas mantém as rodas girando; ela é sobre a Morte e o desejo pela imortalidade. Que não mais é do que dizer que esta é uma história escrita por um Homem!''
(As Cartas de J.R.R.Tolkien, Carta n° 203)

Mas se estamos fadados a morrer, qual seria o propósito da vida?

Tolkien respondeu essa pergunta, feita por Camilla Unwin, filha de Rayner Unwin. Rayner foi aquele garoto de 10 anos filho do editor Stanley Unwin que leu os manuscritos de O Hobbit:

"O que a pergunta realmente significa? Tanto Propósito como Vida necessitam de alguma definição. É uma pergunta puramente humana e moral ou ela se refere ao Universo? Ela  poderia significar: Como eu deveria tentar usar o tempo de vida que me é concedido? OU: A que propósito/desígnio os seres vivos servem por estarem vivos? A primeira pergunta, no entanto, só encontrará uma resposta (caso haja alguma) após a segunda ter sido considerada. Creio que perguntas sobre “propósito” só são realmente úteis quando se referem aos propósitos ou objetivos conscientes dos seres humanos, ou aos usos das coisas que planejam e criam. Quanto às “outras coisas”, seu valor reside em si mesmas: elas SÃO, elas existiriam mesmo que não existíssemos. Mas uma vez que existimos, uma de suas funções é a de serem contempladas por nós. Se subirmos a escala do ser até “outros seres vivos”, tais como, digamos, alguma planta pequena, ela apresenta forma e organização: um “padrão” reconhecido (com variações) em sua família e prole; e isso é muito interessante, pois essas coisas são “outras” e não as criamos, e elas parecem provir de uma fonte de invenção incalculavelmente mais rica do que a nossa.
(...)
De maneira que imediatamente qualquer pergunta: “Por que a vida, a comunidade de seres vivos, apareceu no Universo físico?” introduz a pergunta: Existe um Deus, um Criador-Planejador, uma Mente a qual nossas mentes se assemelham (sendo derivadas dela), de modo que Ela nos é parcialmente inteligível? 
(...)
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Se você não acredita em um Deus pessoal, a pergunta: “Qual é o propósito da vida?”é impossível de ser feita e respondida. A quem ou a que você dirigiria a pergunta? Mas visto que em um canto estranho (ou cantos estranhos) do Universo as coisas se desenvolveram com mentes que fazem perguntas e tentam respondê-las, você poderia mencionar uma dessas coisas peculiares. Como uma delas, eu ousaria dizer (falando com arrogância absurda em nome do Universo): “Sou como sou. Não há nada que você possa fazer a respeito. Você pode continuar tentando descobrir o que sou, mas jamais terá sucesso. E por que você quer saber, eu não sei. Talvez o desejo de saber pelo mero conhecimento em si esteja relacionado com as preces que alguns de vocês dirigem ao que vocês chamam de Deus. Na melhor das hipóteses, essas preces parecem simplesmente louvá-Lo por Ele ser como é, e por fazer o que Ele fez, tal como Ele o fez”.

Aqueles que acreditam em um Deus, em um Criador pessoal, não acham que o Universo em si é digno de adoração, embora o estudo devotado dele possa ser um dos modos de honrá-Lo. E enquanto estivermos, como criaturas vivas que somos (em parte), dentro dele e formos parte dele, nossas idéias de Deus e as maneiras de expressá-las serão em grande parte derivadas da contemplação do mundo ao nosso redor. (Embora também haja revelações dirigidas tanto a todos os homens como a pessoas em particular.)

Assim, pode-se dizer que o principal propósito da vida, para qualquer um de nós, é aumentar, de acordo com nossa capacidade, nosso conhecimento de Deus por todos os meios que tivermos, e ficarmos comovidos por tal conhecimento para louvar e agradecer. Para fazer como dizemos no Gloria in Excelsis: Laudamus te, benedicamus te, adoramus te, glorificamus te, gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam. Louvamo-te, santificamo-te, adoramo-te, glorificamo-te, agradecemo-te pela grandeza de teu esplendor."
(As Cartas de J.R.R.Tolkien - Carta 310 para Camilla Unwin)

Não existe luto por Tolkien. Não existe luto por aquilo que está vivo. Por aquilo que solidificamos que tornamos notável, significativo e incrível para as pessoas por aquilo que é nosso legado.

Legado. Meu amigo e inspirador estudioso/escritor Heráclito Aragão a deu justa ênfase num pequeno texto sobre Tolkien ano passado. Seria injusto terminar esse texto sem essa palavra, que vêm do latim legatum: doação por testamento. Com a morte de Tolkien, ele nos doa até antes de partir vários ensinamentos, conhecimentos e vínculos. Uma vida dedicada à literatura e família. Nos deixa amor.
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Uma vida dedicada ao amor que lemos hoje. Obrigado, J.R.R.Tolkien.

[Rodrigo Passolargo é atual presidente do Conselho Branco Sociedade Tolkien. Diretor da Fábrica do Mito e Palestrante/estudioso da literatura fantástica]

Westeros e o Faërie de Tolkien

(Por Heráclito Aragão Pinheiro)

Pode parecer estranho a princípio, mas a leitura dos livros de George Martim me remete fortemente à infância. Em tempo, quando tinha nove anos, costumava gastar horas e horas lendo livros de história, fascinado com a estranheza e exotismo das civilizações do passado. Havia algo de quase mágico em olhar para o passado e descobrir novos mundos em nosso mundo, separados de nós não apenas pela distância geográfica, mas por séculos, algumas vezes milênios sem fim. A Mesopotâmia com seus zigurates, deuses de nomes estranhos, reis guerreiros e seu idioma escrito em caracteres cuneiformes. A beleza do Egito, com suas escritas demótica e hieroglífica, templos, pirâmides, arquitetura colossal, inúmeros deuses e sua permanente preocupação com a morte e a ressurreição. O medievo europeu, repleto de castelos, cavaleiros em armadura e invasões e guerras sem fim travadas com o entrechoque de escudos e espadas, ou suas justas com lanças se despedaçando contra escudos e elmos. A cada página que eu lia, a cada ilustração que eu observava avidamente, era transportado no tempo e no espaço. Eu não sabia bem a época, mas, quando eu lia todas essas coisas, eu não estava visitando o passado, res gestae, coisa para sempre perdida, mas esses foram os meus primeiros passeios pelo reino perigoso, por FAËRIE. Tolkien assim o descreveu, eu traduzo:
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"FAËRIE é uma terra perigosa, e possui armadilhas para os desavisados e calabouços para os por demais ousados... O reino das histórias-de-fadas é vasto e profundo e elevado e repleto com muitas coisas: todos os tipos de bestas e pássaros são encontrados aqui, mares sem fim e estrelas sem conta; uma beleza que encanta, e um perigo sempre presente, ambos, contentamentoe tristeza, tão afiados como espadas. Nesse reino um homem talvez possa considerar-se afortunado por ter vagado, mas sua própria riqueza e estranheza amarram a língua do viajante que iria narrá-las. E, enquanto está lá, é perigoso para ele fazer perguntas em demasia, para que o portão não seja fechado e as chaves perdidas."

Assim como eu, Martin costumava passear por essas bandas do reino perigoso, que parecem evocar nosso passado distante e as pessoas e construções, deuses e demônios que ali habitavam. Diferente de outros viajantes, todavia, ele se arriscou a fazer perguntas, sua língua não esteve tão presa pelo encanto e glamour de FAËRIE, e ele pôde narrar as maravilhas que viu. Para outros viajantes como eu, que ainda carregam um pouco da poeira das estradas desse reino inóspito e maravilhoso, alguns dos locais descritos por Martin soam familiares.

Westeros, com seus cavaleiros de armadura, galantes, corajosos, testando suas virtudes guerreiras em justas com lanças, castelos feitos de pedra, seus lordes e camponeses, lembra a velha Europa. Não o velho continente, mas a “idade das trevas”, as canções de cavalaria, os contos sobre paladinos e damas inacessíveis, as aventuras e desventuras de Lancelot. Vemos nos Sete Reinos o medievo, mas sem a incômoda igreja católica e seu já decadente cristianismo – preso em fatal anacronismo de crer literalmente nas histórias de jardim de infância de cobras falantes e paraísos terrestres. Recordo-me, igualmente, de me encantar com um passado ainda mais distante, quase mítico, onde homens, na aurora da humanidade, conviviam em meio ao gelo eterno, com feras que pareciam saídas de contos de fadas: mamutes, tigres dentes de sabre... No extremo norte de Westeros nos deparamos com essas mesmas feras, ainda vivendo ao lado de homens quase selvagens que enfrentam diariamente a fúria dos elementos.

Valyria, com sua poderosa feitiçaria, lâminas encantadas e dragões, é um reflexo da glória de Roma e da pax romana. Um povo conquistador, que impôs sua língua e seus costumes aos povos sob seu domínio, que construiu estradas feitas para durarem milênios sem fim, e cuja glória findou em ruína e destruição. Esse mesmo povo, contando com apenas 500 soldados e três dragões, conquistou os Sete Reinos sem grande dificuldade.

Os Dotrhaki, sempre montados em seus cavalos, desnudos, bravos e ferozes, temidos como quase imbatíveis em combate, são uma mistura dos hunos que aterrorizaram a decadente Roma e dos Mongóis de Gengis Khan que invadiram a China.

A decadente Astapor, com suas pirâmides de degraus lembra as minhas andanças pela Mesopotâmia às margens dos rios Tigres e Eufrates, seus jardins suspensos, imensos palácios, muralhas colossais e exércitos de incontáveis soldados.

Os canais de Bravos, com seus duelistas, dançarinos da água, são parentes próximos dos três mosqueteiros, de Cyrrano, e do imortal Zorro. Bravos é a verdadeira Veneza, da qual a nossa Veneza não passa de pálida sombra.

Os dragões merecem um comentário em separado. Tolkien, ao discorrer sobre Bewolf, discordou de seus críticos. Para os críticos, o dragão em Bewolf era um problema, uma excrescência; o pai de Bilbo e Frodo via de forma diferente: em Bewolf, o dragão era indispensável. Mais do que mera alegoria da cobiça, aquela fera de escamas mais duras que ferro e hálito de fogo era um verdadeiro Wyrm, e o único adversário digno do velho rei nórdico, trágico como os deuses nórdicos, fadados a uma última batalha que jamais poderiam vencer. Em Westeros, os dragões encarnam a magia, eles são a face mais palpável de FAERIE, seu encanto e perigo, a natureza indômita da magia, tão sedutora quanto perigosa.
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Eu diria, assim como os especialistas em literatura já disseram sobre o romance O Cortiço, que nenhum dos personagens que habita a terra maravilhosa de Westeros é o protagonista desta história. Não, o verdadeiro protagonista é Westeros e, para além de suas fronteiras, o mundo repleto de terror e beleza em que esses personagens habitam, eis o protagonista imortal e imbatível da Canção de Gelo e Fogo!

[Heráclito Aragão é mestre em psicologia, escritor do livro Obakemono, palestrante e estudioso do gênero fantástico . É Coord. Cultural da Toca CE.]

Carnaval Medieval: A Festa dos Loucos

Chegando o período carnavalesco, proponho uma volta ao tempo para analisarmos brevemente essa datação do ponto de vista medieval. Mas por que, com uma festa tão global, temos essa proposta específica? Comungo as palavras de Jacques Le Goff quando diz que devemos  ‘’nos preocupar com todo o conjunto de fenômenos que constituem a cultura ou, melhor, a mentalidade histórica de uma época.’’
(História e Memória, 1977)

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O medievo tem uma bagagem cultural ao longo do imaginário humano muito forte na civilização europeia e suas exportações para outros países. E mais que isso, as raízes cristãs estão solidificadas nesses terras.
Sobre a etimologia da palavra, divide certos filólogos e estudiosos. Encontramos carna vale (adeus a carne) ou carna levamen (extinguir a carne) como uma visualização prévia da Quaresma. Outra interpretação é a currus navalis (carro naval), sendo vinculada ao começo da Primavera, com desfiles marítimos e carros em forma de barco, originadas na Grécia e Roma e depois os Teutões anterior ao Cristianismo.

Na Idade Média, o carnaval era conhecido como ‘’Festa dos Loucos’’, pois existia a perda da identidade cristã nesse período, substituída pela pagã. Essa era uma forma da Igreja, em esforço, admitir certas práticas e costumes pagãs como forma de expandir o Cristianismo e ao mesmo tempo ser uma forma de evasão diante das premissas no período da Quaresma.
Saindo para as ruas, bebendo, dançando e cantarolando, os cristãos não-convertidos, rendendo-se ao festival e seus costumes de raízes pagãs. Era o momento que o sagrado que regia a vida das pessoas era profanado. Nesse período, vivia-se aos avessos, pois a vida religiosa e oficial era trocada pelo seu oposto: pagã e carnal.
Mesmo não sendo oficial, a Igreja admitia essas práticas como forma de intensificar a cobrança com rigor religioso no período litúrgico quaresmal.
Na Festa dos Loucos, originada das Saturnais Romanas e antecessora do Carnaval moderno, participavam também o baixo clero e seus estudantes, e caracterizavam ainversão temporária da ordem eclesiástica. Eram líderes e papas de um mundo ilusório/utópico nesse cenário carnavalesco.
O filósofo e estudioso da cultura popular e universal, Mikhail Bakhtin descreve a vivência dual do homem medieval:

''Os homens da Idade Média participavam igualmente de duas vidas: a oficial e a carnavalesca, e de dois aspectos do mundo: um piedoso e sério, o outro cómico ... No entanto ... uma fronteira interna delimita os dois aspectos: mesmo existindo lado a lado, eles não confundem, não se misturam.''
(BAKHTIN, 1987, p. S3).

Assim era o medieval no que diz respeito aos costumes carnavalescos e quaresmal. Mesmo em uma sociedade tripartite, de oratores (os que rezam, oram), bellatores (os que lutam, os bélicos) e os laboratores (os que labutam, trabalham) todos compartilhavam individualmente como uma moeda: existem dois lado em uma mesmo corpo, porém nenhum dos lados se misturam, mas cada qual compõe aquele objeto.

A melhor representação plástica sobre o tema é a pintura de Pieter Bruegel ''O Combate do Carnaval e a Quaresma'', onde, do lado esquerdo temos a festa do carnaval. Do lado oposto, o lado da Quaresma. Entre vários personagens, temos de um lado a Gula e do outro o Jejum, simbolizados no homem do medievo.
''O combate entre o carnaval e a Quaresma'' (Pieter Brueghel)

Na literatura, temos o conto  La Bataille de Caresme et de Charnage (autor desconhecido) personificam os dois lados. Charnage é um barão do reino Franco com posse de vasto território que tem como adversário Caresme, poderoso e rico, dono de abadias e senhor dos mares.

Temos a impressão de que essa divisão do festivo e recolhimento também seria uma alusão à divisão de corpo e alma. Mas não é bem assim.
Confessamos que existe uma tentativa da Idade Média e dos pensamentos clássicos da renúncia do corpo. As definições de Platão – que a alma preexiste perante ao corpo – fortificam o conceito do desprezo do corpo para os cristãos. Mesclando nesse contexto, as definições de Aristóteles – que a alma é uma forma do corpo – chegam no pensamento que os dois são indissociáveis. Na Bíblia diz: O Verbo se fez carne.

O padre francês Elphège Vacandard (1849-1927) relatava sobre o ‘’carnal’’ no período após o Carnaval:

‘’Os preceitos eclesiásticos afetavam muito mais que o estômago. A doutrina prescreve várias obrigações na Quaresma. O contato carnal deveria ser tão evitado quanto a ingerência de carne vermelha. Exigia-se dos esposos contenção nas relações sexuais. As festas, inclusive as dos santos, as diversões, núpcias, jogos, representações teatrais, processos criminais e outras atividades não poderiam ser realizados. A observância da regra moral integrava exercícios de caridade e a frequência constante aos ofícios religiosos. Em suma, neste período todos os fiéis deveriam submeter-se a uma série de penitências, práticas piedosas e purificação espiritual via mortificação’’

(VACANDARD, 1925b, p. 2153).

No Brasil, uma corrente desse imaginário medieval veio – como de costume – de Portugal através do ‘’entrudo’’ com uma gama de atividades como arremessar pós, perfumes, ovos, areia e demais componentes. Existiam os Entrudos de Família (que eram mais reservados, com um conjunto de famílias e consistiam em arremessar limões de cheiro como forma de estabelecer os laços entre elas) e os Entrudos Populares (que aconteciam nas ruas das cidades, de maneira mais violenta, muitas vezes com o lançamento de urina e sémen).
Jogos durante o entrudo no Rio de Janeiro (Augustus Earle)

No seu livro ‘’O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro’’ o pesquisador Felipe Ferreira fala que essa realidade do entrudo foi se distanciando quando o país foi ficando mais desenvolvido e sentindo a necessidade de se afastar no passado português. A burguesia do Rio de Janeiro procurou o modelo parisiense de carnaval na forma de sofisticar com bailes e desfiles de carros alegóricos.
Mas devemos nos atentar que houve um distanciamento da exclusividade do carnaval lusitano no Brasil, e não sua extinção. Uma mistura que não pertence a elite e nem ao popular, originando assim os blocos, marchas e demais manifestações pluricarnavalescas.

Devemos observar o Carnaval Medieval como uma manifestação, e não só como espetáculo. Isso deve-se ao fato que o homem medieval vivia realmente o movimento nesse período e não era um simples espectador. Eram condutas de carne e alma sendo anualmente quebradas e refeitas.
Entre tantos costumes herdados, a ‘’Festa dos Loucos’’ está presente nas nossas ruas. Mais do que pular e acompanhar os refrãos do momento (ou somente observar), paremos um pouco para pensar no contexto social e imaginário humano que leva a mobilização de muitas pessoas. Carnaval chegou? Bem, tem a quaresma depois...

[Rodrigo Passolargo é Presidente do Conselho Branco Sociedade Tolkien]

 

 

 

 

 

 

 

 

Feliz Aniversário, Tolkien!

Hoje é a data de nascimento do pai de Bilbo e Frodo.  Ele nasceu em 3 de Janeiro de 1892 na África do Sul, e teve outros filhos além dos dois Hobbits: John Francis Reuel Tolkien, Michael Hilary Reuel Tolkien, Priscilla Mary Anne Reuel Tolkien e Christopher John Reuel Tolkien (responsável por seu legado). Tolkien foi um ótimo pai todos os anos escrevia cartas de Papai Noel para seus filhos e, um de seus livros mais divertidos Roverandon foi escrito para explicar a um de seus filhos o que acontecera a um cachorrinho de brinquedo predileto perdido na praia.

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Tolkien talvez não o soubesse, mas ele teve inúmeros outros filhos, centenas de milhares de pessoas que leram seus livros e foram inspiradas a produzir arte de alguma maneira, pessoas no mundo inteiro que receberam do pacato professor de Oxford a chave da prisão que é o mundo em que vivemos e que puderam passear por novos e maravilhosos mundos e retornar, trazendo um pouco dessa maravilha para esta nossa terra fria e cinzenta. Em seus livros ele ensina o caminho para Fairy, para o encantamento que está além da nossa terra e, ao mesmo tempo, espalhado por toda ela para aqueles capazes de enxergar. Todos esses são seus filhos e filhas, todos representam o seu legado, todos tiveram em seus peitos acesa a chama para se tornarem subcriadores.

Todos temos muito o que celebrar hoje, seus filhos e filhas, irmãos de Bilbo e Frodo, fãs ao redor do mundo que receberam do professor Tolkien o estímulo e a inspiração para ver além daquilo que é mundano, de consagrar suas vidas a imaginação e a fantasia e, assim como ele o fez, gestar novos mundos e fazer arte. Tolkien segue vivo no coração daqueles que despertaram ao ler seus livros, segue vivo nos passos de todos aqueles que se aventuraram até hoje em Fairy, seguindo suas pegadas e, muitas vezes, se aventurando por novos e perigosos caminhos.

Livro – O Hobbit na Mitologia de Tolkien: Ensaios sobre Revisões e Influências

'‘The Hobbit in Tolkien’s Mythology: Essays on Revisions and Influences’' é um livro que reúne diversas abordagens que analisam a mitologia e legendarium imerso na obra de O Hobbit.

Em 2013, o "Celebrando O Hobbit", conferência na Valparaiso University - que marca o 75 º aniversário da publicação do livro e da primeira parcela de filmes do Hobbit de Peter Jackson - dois artigos plenárias foram apresentados:
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"Ancorando o Mito: O Impacto de O Hobbit no legendário de Tolkien" pelo ilustre estudioso John D. Rateliff, forneceu numerosos exemplos da influência do Hobbit no legendário de Tolkien e "Conexões francesas de Tolkien" por Verlyn Flieger discutindo influências francesas no desenvolvimento de Bilbo Bolseiro e suas aventuras. Em discussões com os palestrantes e outros apresentadores, tornou-se evidente que um livro com ênfase em como O Hobbit influenciou o desenvolvimento posterior de legendarium de Tolkien foi extremamente necessário. Esta coleção de ensaios preenche essa necessidade. Com os estudos de Flieger e Rateliff e demais pesquisadores, o livro é organizado por Bradford Lee Eden, Ph.D. em Musicologia Medieval. Atuou como Associada Bibliotecária para Serviços Técnicos e Comunicação Científica na Universidade da Califórnia, Santa Barbara e hoje é Reitora de Serviços da Biblioteca da Universidade de Valparaiso, Indiana.

Confira os capítulos do livro:

1. A EVOLUÇÃO DA RAÇA DOS ANÕES

Ancorando o mito: o impacto de O Hobbit em Tolkien legendarium
(John D. Rateliff)

De Nauglath para O Povo de Durin: O Hobbit e de Tolkien Anões 
(Gerard Hynes)

2. DIA DE DURIN

"Ele passa a nossa habilidade nos dias de hoje": influências mundiais primários sobre a evolução do Dia de Durin. 
(Kristine Larsen)

A análise científica de Dia de Durin 
(Sumner Gary Hunnewell)

3. INFLUÊNCIAS FRANCESAS

Conexão francesa de Tolkien 
(Verlyn Flieger)

4. INFLUÊNCIAS DO NORTE

Híbrida Mitologia de Tolkien: O Hobbit como Old Norse "conto de fadas" 
Jane Chance

5. LINGUÍSTICA

De "O Silmarillion "para O Hobbit e vice-versa: uma incursão onomástica 
(Damien Bador)

5. SENCIÊNCIA ANIMAL

Goblins civilizados e animais falantes: como O Hobbit criando problemas de sensibilidade para Tolkien 
(Gregory Hartley)

6.INVISIBILIDADE

Vendo no escuro, vendo pela escuridão: como a invisibilidade de Bilbo define a visão de Tolkien 
(Michael A. Wodzak)

7. BILBO COMO TOLKIEN PERSONIFICADO

A Victorian em Valhalla: Bilbo Baggins como o elo entre a Inglaterra e a Terra-média 
(William Christian Klarner)

8. OS PERSONAGENS BEORN E TOM BOMBADIL

Beorn e Bombadil: mitologia, lugar e paisagem na Terra-média 
(Justin T. Noetzel)

9. PEREGRINAÇÃO

Viagens, redenção e pacificação: hobbits, anões e elfos e o poder transformador da peregrinação 
(Vickie L. Holtz Wodzak)

10. AMBIENTALISMO E AUTORIA

O quintal dos Bolseiros: o ambientalismo, a autoria, e os elfos de Tolkien no legendarium
(David Thiessen)

11. INTERPRETAÇÕES CONTEMPORÂNEAS EM O HOBBIT

Politemporariedade e caracterização épica em O Hobbit: Uma Jornada Inesperada : refletindo o modernismo e medievalismo d'O Senhor dos Anéis
(Judy Ann Ford e Robin Anne Reid)

A sabedoria da multidão: memes de Internet e The Hobbit: An Unexpected Journey
(Michelle Markey Butler)

Fontes: Middle Earth News, Tolkien Gateway, Mc Farland Books.

Conselho Branco Sociedade Tolkien

Uma interpretação Psicológica do Anel do Poder nas histórias de J. R. R. Tolkien

(O referido texto é somente a metade da análise/artigo original. Heráclito Aragão é Coordenador Cultural da Toca CE/Conselho Branco Sociedade Tolkien. Historiador, mestre em Psicologia e escritor, com diversos estudos sobre Tolkien, mitologia e psicologia)

Uma interpretação Psicológica do Anel do Poder nas histórias de J. R. R. Tolkien

''One for the Dark Lord on his dark throne
In the Land of Mordor where the Shadows lie.
One Ring to rule them all, One Ring to find them,
One Ring to bring them all and in the darkness bind them
In the Land of Mordor where the Shadows lie.''

Creio que a trilogia O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, bem como seu antecessor, O Hobbit dispensa maiores apresentações. Mesmo antes dos filmes dirigidos por Peter Jackson, a saga escrita pelo pacato professor de Oxford já era conhecida e amada por milhões no mundo todo. Em meu livro A Sombra e o Mal no Hobbit (no prelo) fiz uma interpretação psicológica dessa obra, sem, contudo, me aprofundar em dois aspectos importantes: Gandalf e o Um anel. No que concerne ao Anel do Poder, como ele desempenha um papel importante, mas discreto em O Hobbit (como sua própria natureza mágica que concede invisibilidade) e se reveste de maior relevo e importância na aventura que foi a continuação dessa obra, preferi deixar para tratar sobre seu simbolismo posteriormente, pois, para fazê-lo, teria que me reportar constantemente à referida trilogia o que estava fora do escopo do meu trabalho, mas pretendo fazê-lo aqui, me reportando principalmente a trilogia e, no que concerne ao O Hobbit tratar do momento em que Bilbo adquire o Anel, as “advinhas no escuro”.
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Uma interpretação psicológica requer alguma explicação preliminar ao público leigo em psicologia, um pequeno mapa do que pretendo fazer aqui. É de bom tom começar aludindo a um fato fundamental no que concerne a esse tipo de empreitada, toda interpretação psicológica é um obscurecimento da luz original daquilo que ela procura interpretar, a verdade sobre o Um Anel está contida em sua inteireza na obra de Tolkien, a arte do intérprete jamais será capaz de superar o enlevo estético, intelectual e emocional que a obra é capaz de proporcionar aos seus leitores, mas então por que fazer uma tal análise? Responderei a isso em breve estimado leitor, peço-lhe um pouco de paciência e caridade de sua parte para com esse escrito, você não se desapontará.

Antes de responder a pergunta que eu suponho você está se fazendo nesse exato momento, pretendo explicar – sucintamente – como se faz uma interpretação psicológica, e, especificamente, como farei esta interpretação, ou seja, sobre o Um Anel.

Marie-Louise Von Franz principia o seu A Interpretação dos Contos de Fadas justamente expondo o método Junguiano. Como asseverei anteriormente, um conto de fadas, mito, ou, em nosso caso, uma obra literária de elevado valor simbólico, é, em si mesma, sua melhor explicação, ou, dito de outro modo, seu significado está contido na totalidade dos temas que ligam o fio da história. O significado psicológico essencial do Anel (que o intuito desse trabalho procura desvelar) é expresso nas figuras e eventos simbólicos que estão presentes na obra e pode ser desvendado por meio deles. O intuito do interprete, no caso de uma análise de cunho psicológico, é procurar perceber o que essas figuras e eventos simbólicos nos dizem do pano de fundo psíquico inexpresso. Na linguagem da psicologia, procuramos perceber, entre outras coisas, a estrutura arquetípica da história. Um arquétipo, no entender de Jung, é uma categoria da fantasia, uma pré-disposição para produzir um comportamento humano típico (ou, ainda, uma disposição estrutural básica para produzir uma certa narrativa mítica), entretanto, ele é, fundamentalmente, um fator psíquico desconhecido, impossível de ser traduzido em termos meramente intelectuais. O arquétipo pode, em certo sentido, ser compreendido como um mitologema, a estrutura fundamental dos eventos e figuras simbólicas de que falávamos, mas o simples fato de sermos capazes de apontar o mitologema que se expressa nessa ou aquela história não nos serve a guisa de interpretação psicológica, não passa de um juízo analítico que não contribui muito para a nossa compreensão, ou mesmo para a elucidação do significado psicológico essencial que buscamos. Sobre isso Franz nos fala:
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''Precisamos nos aproximar tanto quanto possível do caráter específico e determinado de cada imagem e tentar expressar o verdadeiro caráter específico da situação psíquica que ela contém.'' (1990, p.11).

Como exposto, o arquétipo não pode ser interpretado de maneira exclusivamente intelectual, pois ele é sim um pensamento padrão, mas, para além disso, o arquétipo também é uma experiência emocional que possui um elevado valor afetivo, do contrário o mito não poderia ter vida e significado para o indivíduo. Por essa razão, diferente do que acontece amiúde na ciência, a Psicologia deve levar em consideração o tom afetivo e o valor emocional dessas imagens e eventos simbólicos, o que inclui, inclusive, a reação afetiva do intérprete, nesse caso, estimado leitor, as minhas reações afetivas – para uma discussão epistemológica mais aprofundada sobre esse tema indico ao leitor o último texto do meu livro Impetus.

Um dos motivos para se interpretar (seja um sonho, contos de fadas, ou uma imagem simbólica em uma obra literária) é que a interpretação traz um pouco mais de objetividade, dessa forma o objeto a ser interpretado não trilha somente um estado de consciência já existente. Ou dito de outra forma, isso lhe abre novas perspectivas, algumas delas enriquecedoras para sua visão de mundo, para seu entendimento daquela obra específica, ou, para a percepção de que existem outras perspectivas! Há que se esclarecer que a interpretação é uma arte, Schleiermacher – um dos primeiros a propor uma hermenêutica universal – também afirmava que a interpretação se tratava de uma arte, no sentido em que ela possui regras, mas o uso dessas regras não pode ser confinado a regras, como no caso de uma aplicação mecânica. De acordo com Von Franz, essas regras que guiam a interpretação se baseiam na análise dos sonhos como proposta por Jung.

Começamos por observar o tempo/lugar em que se passa a história, em seguida examinamos as Dramatis Personae, passa-se a observar o início do problema e nesse ponto se procura definir o problema psicologicamente e entender a sua natureza, passa-se a examinar a peripeteia e o desfecho. O método consiste em observar a estrutura do material a fim de colocar um pouco de ordem.

Deve-se realizar uma análise do material comparativo, aquilo que Jung chamava de “método filológico” a fim de traçar o maior número possível de paralelos para que se possa amplificar o tema, por amplificar Jung compreendia alargar um tema por meio de numerosas versões análogas. Depois disso deve-se construir o contexto, ou seja, ao realizar uma amplificação, posso perceber de que maneira o objeto de que estou tratando se comporta de um modo específico, além disso, alguns paralelos me ajudam a compreender o meu objeto (o anel nesse recorte específico) e outros não, mas mesmo assim é bom perceber que essas outras conexões são possíveis e elas podem me ajudar a compreender a relação, do Um Anel, por exemplo, com outros elementos da narrativa. Segue-se, por fim, a parte final, e fundamental de uma análise dessa espécie, o trabalho de traduzir a história amplificada para a linguagem psicológica.

Finalmente respondendo a questão de por que se interpretar mitos e contos de fadas, ou obras de arte simbólicas. Segundo Jung é neles que melhor se pode estudar “anatomia comparada da psique”, nos mitos e lendas, por exemplo, obtêm-se as estruturas básicas da psique humana por intermédio do material cultural. Além disso, em termos práticos e tendo como horizonte a clínica psicológica, o método objetivo de interpretação dos sonhos pode ser melhor aprendido com a prática de interpretações como essa que realizo aqui. Há algo ainda, a interpretação permite que a mensagem simbólica contida nos mitos, lendas e contos de fadas seja melhor assimilada pela consciência, nesse sentido, presta-se um serviço a cultura como um todo e, ao mesmo tempo, às histórias. Não bastassem esses motivos, convém salientar ainda que um conteúdo arquetípico sempre se expressa primeiramente como metáfora. Quando o mito fala do sol e com ele forem identificados o leão, o rei, o ouro, não se trata nem de um nem de outro, mas de um terceiro desconhecido que se expressa mais ou menos adequadamente por meio dessas metáforas, mas que é impossível de ser formulado intelectualmente, pois nunca nos libertamos do fundamento arquetípico. Como não podemos anular os arquétipos a cada nova etapa da diferenciação cultural da consciência, somos confrontados com a tarefa de encontrar uma nova interpretação correspondente a essa etapa, com o intuito de conectar a vida do passado, que ainda habita em nós, com a vida do presente. Sem isso, sem essa nova interpretação que não permite que o presente se desgarre do passado, ou daquilo que é eterno, surge uma consciência privada de raízes, que sucumbe a todo o tipo de sugestão, como vemos hoje em dia de maneira corriqueira. No fundo, como asseverou von Franz, interpretamos pelo mesmo motivo que no passado se contavam mitos e contos de fadas: há um efeito vivificante que traz paz ao substrato inconsciente instintivo.
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O Um Anel surge em O Hobbit, quando Bilbo se perde dos anões e mergulha nas profundezas da montanha e ali descobre, em meio à densa treva, um lago em uma caverna inóspita e, no solo úmido e pedregoso, o anel de ouro que ele achou e escondeu em seu bolso. Momentos depois ele se defrontou, sem o saber, com aquele que fora o portador do anel por cerca de 500 anos, Gollum e, por intermédio de um jogo de adivinhas e da ajuda da magia do anel, escapou da gruta, dos goblins e de Gollum. Quando o anel surge, ele está largado como se fosse algo ordinário, mas logo revela o poder de tornar seu usuário invisível (a não ser por sua sombra) bem como, nota-se depois, confere a ele sentidos invulgarmente aguçados e uma longevidade fora do comum. Bilbo o utiliza como um de seus principais recursos, graças ao poder de invisibilidade ele escapa das masmorras do rei dos elfos, do dragão Smaug e realiza várias peripécias. De sua Nekya, sua descida as profundezas, ele traz um poder que o auxilia em sua jornada, mas esse peixe fisgado das profundezas é deveras ambivalente.

Inicialmente o Um Anel se revela invulgar por conceder invisibilidade, aos poucos se percebe que ele também dá ao seu portador sentidos aguçados e, sabemos depois, grande longevidade. Além disso, entretanto, ele tem uma personalidade, toma suas decisões e possui o desejo de se reunir ao seu mestre de quem guarda uma parte do poder e da alma, dito de outra forma, ele possui vontade própria, e, com ela, a capacidade de corromper quem quer que o toque – Peter Jackson interpretou isso como um vício em seus filmes. O material do qual ele é feito lembra o ouro, mas é quase indestrutível, e, sob altas temperaturas, revela sua inscrição luminosa feita na língua de Mordor. O Anel do Poder foi criado em segredo, como um estratagema para controlar os portadores dos outros anéis forjados por Sauron, ou mesmo aqueles criados pelos elfos utilizando dos sortilégios aprendidos com o servo de Melkor. Ele possui uma estreita vinculação com a morte e o mundo dos espíritos e fantasmas – como veremos – que na história se evidencia pela sua relação com os espectros, os Nazgul, sombras desmortas dos reis dos humanos corrompidos pelos anéis que receberam de Sauron, condenados a servir ao senhor do escuro e a sua vontade maligna.
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Fundamentalmente, o contato com o Anel do Poder, e com a vontade de Sauron que nele reside, leva seu portador a se confrontar com o mal, tanto o mal subjetivo que habita o seu coração, quanto com uma maldade objetiva e terrível, demoníaca e inumana, capaz de aniquilar a vontade mesmo dos seres mais poderosos da Terra-Média. O contato com esse mal, representado pelo Anel implica um confronto moral dos mais difíceis. Ninguém é capaz de resistir por muito tempo, e, mesmo Frodo, vacila no final.

Utilizando o método comparativo, o paralelo mais próximo que temos na cultura ocidental é o famoso anel de Gyges, descrito no livro dois da República de Platão. A fábula contada por Glauco em um debate com Sócrates acerca da justiça é uma alegoria para a natureza humana e sua inclinação natural em direção à justiça ou a injustiça. No referido debate, Glauco perguntou a Sócrates “o que é justiça”, Thrasymachus insistia que “poder é justiça”, pois a justiça é o interesse do mais forte, o que o mestre de Platão refuta. Glauco, entretanto, com essa alegoria, procura demonstrar o quão genuíno o cometimento das pessoas com a justiça pode ser. As semelhanças entre o alegórico anel presente no debate socrático e o anel imaginado por Tolkien são evidentes.

Na perspectiva de Glauco, os homens se mantêm no caminho da justiça apenas pela força da lei, mas se tivessem o poder de dar livre curso aos seus desejos eles assim o fariam, como no caso dessa história. Esse poder, de dar livre curso aos seus desejos e escapar a punição foi dado a Gyges ancestral de Croesus o lídio. Ele era um pastor a serviço do rei da Lídia. Um dia aconteceu uma grande tempestade seguida de um terremoto que abriu uma fenda no solo próximo ao local onde ele pastoreava o rebanho. Ele desceu pelo buraco na terra e encontrou uma “caverna das maravilhas” e, em meio a inúmeros tesouros encontrou um cavalo oco de bronze com portas e, ao abrir essas portas se deparou com um cadáver que parecia mais do que humano e estava ornado apenas com um anel de ouro. Gyges pegou para si este anel e subiu de volta ao seu pasto e as suas ovelhas. Rapidamente ele descobriu o poder de seu anel, ao virar a reentrância que existia no anel, talvez o local onde outrora existira uma gema, para dentro da sua mão ele se tornava invisível, ao colocar para fora ele voltava a poder ser visto por todos. De posse do anel ele se esforçou até conseguir ser um dos mensageiros enviados a corte do rei, lá chegando ele seduziu a rainha e, usando seu poder, assassinou o rei e tomou o trono para si. O argumento defendido por Glauco é o de que nenhum homem, justo ou injusto seria capaz de resistir à tentação de usar esse poder para satisfazer os seus desejos e escapar impune, pois, prossegue ele no argumento, as pessoas são justas devido à coerção que é imposta para que sigam a justiça, com o intuito de prover a sociedade de alguma regulação e ponto intermediário entre os fortes e os fracos. O homem dotado de tal poder, todavia, seria como um deus entre mortais, e daria livre curso a seus desejos sem se importar com a justiça, pois estaria livre de qualquer coerção externa.

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A fábula guarda similaridades também com a história de Aladdin, como veremos, mas no que concerne ao Anel do Poder, vemos que na história grega o acento se coloca sobre a natureza humana, naturalmente inclinada para a livre vazão de seus desejos (não de acordo com Sócrates, mas em consonância com Glauco e Thrasymachus), trata-se de um mal subjetivo, quase banal, e o anel mágico é apenas um meio de dar vazão a esse mal sem o medo de qualquer retaliação. Nas palavras do próprio Glauco, nenhum homem poderia se abster de roubar do mercado aquilo que desejasse, ou entrar nas casas e se deitar com quem lhe aprouvesse, soltar quem estivesse trancafiado na prisão ou matar impunemente. Dada à oportunidade e os meios adequados, qualquer homem agiria dessa forma. Na obra de Tolkien a perspectiva é um pouco diversa, o Um Anel ativamente corrompe quem o porta, e quanto mais poderoso o portador, mais fácil para que ele seja corrompido. Independente da natureza humana, o poder do Anel é ativamente maligno. É sutilmente indicado por Tolkien que a natureza das pessoas é susceptível a essa dominação, que o mal objetivo se casa com esse mal subjetivo para que ele alcance o seu nefasto desígnio e, em mais de um momento na obra, Tolkien aponta a ganância como um dos sentimentos utilizados pela vontade do anel para corromper. Sméagol foi seduzido pelo desejo ganancioso de possuir o anel brilhante e para isso mentiu e matou, a mera visão do anel bastou para corroer a sua alma. Em sua carta de número 181, Tolkien assim se referiu a Gollum “A dominação do Anel era grande demais para a alma mesquinha de Sméagol. Mas ele jamais teria de suportá-la se não tivesse se tornado um tipo de ladrão desprezível antes do artefato cruzar seu caminho.” (grifo meu).  Os anéis dos anões eram capazes de multiplicar a riqueza e isso os seduziu, já os reis humanos foram seduzidos com a promessa de terem acesso à poderosa feitiçaria. Assim como na fábula platônica, os desejos individuais e egoístas são o combustível para o mal, mas Tolkien vê a possibilidade de resistir quando há altruísmo e humildade, como no caso dos 3 hobbits que tiveram o anel em seu poder e não foram completamente corrompidos (em algum grau todos eles sofreram os efeitos nefastos do poder do Um Anel). Assim como Sócrates, Tolkien acreditava – e dá pistas disso em sua obra – em uma justiça objetiva, todavia ele não se esquiva de perceber que ao lado da luz existe a treva e que, para além da maldade subjetiva há um mal coletivo com o qual, em maior ou menor grau, todos temos de lidar (ou nos esquivamos ao máximo de fazê-lo). Além do aspecto de ser um anel mágico que confere invisibilidade, o anel da fábula grega trata fundamentalmente de um debate sobre a natureza humana (no intuito de descobrir o que significa justiça), o que é algo muito próximo do sentido psicológico essencial expresso por Tolkien em seus quatro livros. Perceba, estimado leitor, que Bilbo viveu por um bom tempo no castelo do rei dos elfos até poder libertar seus amigos, ele esteve invisível, roubava comida e soltou seus camaradas da cadeia (como Glauco argumentara), mas, ao final da história, envergonhado de seus dias como um ladrão invisível ele tenta pagar ao rei pela comida roubada, esse é um dos gestos fundamentais de Bilbo, e um grande ato de heroísmo.

Na história de Aladim, o jovem vagabundo é levado a entrar em uma “caverna das maravilhas” para encontrar uma lâmpada mágica. Aladim era o filho de um alfaiate e uma fiadora de algodão que vivia na China. Afeito aos trabalhos manuais se entregava a vadiagem e, tal desgosto isso provocava em seu velho pai que ele veio a falecer. Viveu como um vadio até os 15 anos, quando ele e sua mãe foram ludibriados pelo mago Mustafá, que o fez entrar na caverna onde estava a lâmpada maravilhosa munido do anel mágico. Aladim quase morre ao ficar preso na caverna e escapou graças aos sortilégios do gênio do anel (um djin) e, ao retornar para a sua velha mãe descobre o poder da lâmpada. Ambos, muito humildes e pouco ambiciosos passaram a viver vendendo prataria trazida pelo gênio, mantendo-se como pessoas modestas e sem se deixar deslumbrar pelos vastos poderes das criaturas místicas habitantes dos dois objetos. Sem grandes ambições vão vivendo até que Aladim se apaixona pela filha do sultão e usa os poderes dos gênios para lhe ganhar a afeição.
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Diferente da perspectiva de Glauco na República a posse de objetos tão maravilhosos não corrompeu Aladim, que nunca fora realmente ambicioso, mas, ao contrário, a experiência toda pareceu curá-lo de sua puerilidade e vagabundagem despreocupada, lhe facultando a entrada na vida adulta responsável e a possibilidade de casar-se. Nesse ponto, a narrativa das Mil e Uma Noites é um paralelo quase exato da obra de Tolkien. Bilbo, Sam e Frodo são seres simples, em seus corações não medra a ganância, mas o amor pelo júbilo, à amizade e os prazeres modestos de uma boa mesa e boa companhia. Em certo sentido, o anel e a lâmpada são habitados por espíritos poderosos dotados de vontade, eles são, todavia, escravos dos objetos. No caso do Um Anel ele é escravo apenas da vontade de Sauron e não há distinção entre o Anel e sua vontade e força espirituais como há claramente no caso de Aladim. Tanto o anel de Aladim quanto o Anel do Poder estão conectado a forças espirituais, no mínimo ambivalentes, a mãe de Aladim admoesta o filho, logo no início da história, a se livrar do anel e dos djins, pois segundo o profeta eles são demônios. No caso da obra de Tolkien, Sauron é uma força espiritual francamente maligna e, assim como os djin, seus poderes parecem ilimitados, nem mesmo os maiores poderes da Terra Média podem lhe fazer frente. Nos 3 casos (Gyges, Aladim e Sauron) o anel é um tesouro vindo de eras antigas, escondido debaixo da terra, em cavernas ocultas e com poderes insuspeitos. Gyges, Aladim e Bilbo tiveram que deixar para trás, ao menos temporariamente, o mundo da luz para descer a trevas da terra, ao mundo dos mortos, ou, para utilizar a fecunda expressão de Goethe “a terra das mães”.  É curioso notar que, assim como Bilbo, Aladim só é capaz de escapar das profundezas da terra graças ao poder do anel mágico e após se confrontar com Mustafá. Alguns dos elementos do fatídico episódio das “adivinhas no escuro” chamam a atenção, Bilbo estava em seu pior momento, perdido, cansado, separado de seus amigos e de Gandalf, cercado de inimigos por todos os lados, justamente nesse momento de desespero ele depara com o Anel. Com Aladim se dá algo similar, o gênio surge, e isso é importante, depois de passar dias enterrado quando ele apela para Alá, Jung disse que estar numa situação que não tem saída, ou em um conflito sem solução é o começo clássico do processo de individuação. Ambas as imagens são conotativas, metáforas de um fenômeno vivo de nossa alma. Quando nossa orientação consciente entra em colapso, quando tudo aquilo que temos e parecemos ser não nos pode mais levar adiante, e quando finalmente, em desespero, acossados pelas chamas dos afetos, nos damos conta de nossas limitações, aí então o inconsciente se manifesta, não simplesmente como um salvador, mas como um desafio, o desafio de encararmos aquilo que todos mais tememos: a totalidade. A criatura das profundezas, Gollum é uma imagem especular de Bilbo, sua estreiteza de consciência, pode ser vista pela metáfora da pequena ilhota onde vivia em meio ao lago (como asseverou certa feita Jung, a água é ao símbolo favorito do inconsciente) o espaço limitado da ilha é, em certa medida, o pouco que lhe resta de sua consciência, Gollum esqueceu até mesmo de seu nome, e vive nas trevas, longe da luz. O lago debaixo da terra é uma água estagnada, parada, habitada por peixes cegos e que jamais é tocada pelo vento, e isso é profundamente significativo. Bilbo se confronta, por meio de Gollum, com a solidão, o isolamento, a alienação de si mesmo, Gollum perdeu seu nome, ele perdeu a própria alma, é com essa possibilidade nefasta que Bilbo tem que se haver. Em termos psicológicos, esse isolamento, compreendido como metáfora de uma vivência interior, me leva novamente a falar da projeção, pois, como afirmou Jung no Aion, a projeção conduz a um isolamento do sujeito em relação ao mundo exterior, e a uma relação ilusória, um estado de auto-erotismo em que se sonha com um mundo cuja realidade é inatingível gerando um sentimento de incompletude, entretanto, o mais dramático é que quanto mais as projeções se interpõem entre o sujeito e o mundo exterior se torna cada vez mais difícil e árduo o trabalho de perceber suas ilusões.
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Esses dois momentos vividos por Bilbo e Aladim são representações dramáticas e pujantes desse momento de confronto. Não se iluda, estimado leitor, eles não são heróis à toa, há um preço elevado a se pagar por se tornar quem se verdadeiramente é, o herói é aqueleque, premido pela necessidade, acreditando em seu destino e designação e, com o auxílio indispensável de forças superiores, sejam deuses ou sua serpente interior, são capazes de arcar com esse preço elevado e abrir mão dessas ilusões.
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Na mitologia nórdica, amplamente conhecida e estudada por Tolkien, temos abundantes exemplos de anéis mágicos, inclusive anéis amaldiçoados. O anel Draupnir utilizado por Odin possuía o poder de gerar mais ouro, pois a cada nove dias ele produzia oito anéis de ouro de idêntico tamanho e peso ao dele mesmo.  Seu nome em nórdico antigo significa “o gotejador”, pois dele gotejam novos anéis de ouro. Esse anel foi forjado pelos irmãos anões Brokkr e Eitri. De acordo com a lenda, Loki os desafiou a produzir presentes mais incríveis para os Aesir do que os 3 presentes criados pelos filhos de Ivaldi, e apostou sua própria cabeça contra os 3 presentes maravilhosos. Os anões criaram Draupnir, Mjöllnir e Gburullinsti. No fim das contas o Martelo de Thor, Mjöllnir os fez vencer a aposta, mas Loki se safou dizendo que a aposta incluía apenas sua cabeça e, para os anões a removerem, teriam que ferir seu pescoço que não estava incluído na aposta. Irritados eles puniram Loki selando seus lábios com arame. O anel Draupnir foi colocado por Odin na pira funerária de Balder, o que reforça seu simbolismo associado à imortalidade, renascimento e fertilidade. Convém recordar que uma das qualidades buscada na lapis era a propriedade de produzir ouro.

Andvarinaut é o famoso anel dos Nibelungos, seu nome significa “dádiva de Andvari”, e possuía a faculdade de produzir ouro. Loki (novamente Loki) trapaceou Andvari para poder ter o anel, mas o anão se vingou amaldiçoando o anel (a maldição não é algo muito claro, o anel é uma fonte de infortúnio a todos que o possuírem, trazendo morte prematura), Loki, que estava com Thor e Odin matou por acidente o filho de Hreidmar rei dos anões Ort, como compensação ele deu ao rei o ouro e o anel amaldiçoado de Andvari em troca da libertação de Thor e Odin. A maldição foi rápida, o irmão de Ort, Fafnir, assassinou o próprio pai e se apossou do tesouro, se transformando em um dragão para guardá-lo. Sigurd (Siegfried) tempos depois abateu a fera e se assenhoreou do anel e do tesouro, posteriormente ele regalou a Brynhildr (Brünnehilde) com Andvarinaut. Temos novamente o tema da ganância associado à maldição, o apego a objetos materiais as expensas das relações humanas, da fraternidade e do amor, e uma fez mais a presença do espírito de contrafação Loki, com suas mentiras e artimanhas envolvido nas histórias dos anéis. Jung certa feita asseverou “tudo o que é autenticamente anímico tem uma dupla face: uma voltada para frente, outra para trás. Ela é ambígua e portanto simbólica, como toda realidade viva”. Existe, como podemos notar, uma clara relação dos anéis com a ganância, mas o outro lado da ganância é a abundância e a fertilidade, como vimos no caso do anel de Odin.

A parábola socrática dá conta de maneira muito precisa de muito do que está nesses paralelos, que seja, a relação desses anéis e seus poderes (ou maldições) com a natureza humana e a maneira como se relaciona com a justiça, a ganância e o poder. O desejo de possuir o Anel é um tipo de ganância, mesmo que travestido de um desejo nobre como no caso de Boromir. Na obra de Tolkien há um tema subjacente que é, a meu ver, uma tentativa de responder ao conceito de justiça de Thrasymachus: justiça é poder. Platão deplorava o modelo de heroísmo homérico, em que os guerreiros gregos que combatiam em Tróia acreditavam ser mais digno destruir e pilhar cidades para conseguir alimentos do que plantá-los, e deplorava o heroísmo de Aquiles, sua ira e ganância. A resposta platônica difere consideravelmente daquela fornecida pelos dois personagens: Glauco e Thrasymachus. Nessa perspectiva o bom e o belo, ao serem contemplados, ou recordados, levavam o homem naturalmente ao caminho do bem. No Hobbit o tema da ganância está em primeiro plano, mas, ligado de maneira inextricável a ele está o tema do poder e suas consequências, o que transparece com clareza na obra subsequente de Tolkien, na penosa jornada de Frodo.

Outros anéis mágicos surgem na literatura medieval, no romance arturiano do XII escrito por Chrétien de Troyes o Cavaleiro de Lyon, sir Yvain recebe de uma donzela um anel mágico que funciona exatamente como o anel de Gyges. As baladas escocesas Hind Horn e Bonny Bee, ambas apresentam, anéis mágicos que se tornam pálidos quando a pessoa que os recebeu perde a pessoa que os deu (novamente vemos aqui a relação com a morte). No romance arturiano do século XIV em inglês-médio Sir Perceval of Galles, o herói, sir Perceval, toma o anel de uma donzela adormecida em troca de seu anel e se mete depois em incríveis aventuras que incluem derrotar sozinho um exército de sarracenos em uma terra de donzelas, somente próximo ao fim do romance ele descobre que quem quer que use o anel adquire o poder de não ser morto. Anéis similares a esse de sir Perceval aparecem em outros romances, no romance medieval do século quatorze Sir Eglamour of Artois, Floris and Blancheflour do século XII, bem como no conto de sir Thomas Malory Sir Gareth of Orkney escrito no século XV em que Sir Gareth recebe de uma donzela de Avalon um anel que o tornaria invulnerável e impediria que morresse em um torneio devido aos sangramentos. Na coleção de contos Gaélicos chamada the Mabinogion há um romance chamado Geraint ab Erbin em que a personagem homônima encontra um anel que lhe confere o poder de invisibilidade.

Como se vê o caráter materno surge de maneira mais clara, ao invés da alusão à caverna ou à descida ao solo, aparecem donzelas que entregam o anel. No medievo, em virtude do amor cortês essa temática estava mais próxima da consciência coletiva, o que em parte explica o aspecto materno surgir personificado.

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Vários dos paralelos dão conta da proximidade dos anéis mágicos com o mundo dos espíritos, a capacidade de tornar seus portadores invisíveis está estreitamente relacionada ao mundo espiritual. Como é bem sabido, as coisas espirituais, benfazejas ou não, normalmente são invisíveis a visão ordinária e por isso, seres espirituais não podem ser vistos. Na história de Perseu, ele recebe o elmo de Hades (deus do mundo dos mortos) para enfrentar a górgona e este lhe dá o poder de se tornar invisível (como os fantasmas e espectros). A história de Perseu é um paralelo dos mais interessantes, não apenas no que concerne à invisibilidade, mas igualmente pelo fato dele se confrontar com um mal absoluto: a Górgona. Bastava olhar para a Medusa para ser convertido em pedra, ajudado pelos deuses ele a derrota e utiliza seu poder para engendrar uma transformação (mesmo decapitada seu poder nefasto ainda funcionava, decorrente da maldição de Athena) e, ao final, essa força maléfica tão terrível e desmedida é devolvida aos deuses. Contrariamente ao que julgava Glauco, esse poder absoluto que esteve nas mãos de Perseu não o corrompeu ou o fez acreditar-se um deus, pelo contrário, ele usa esse poder para restaurar o desequilíbrio causado pela desmedida de outrem e depois, humildemente, retorna a cabeça, as sandálias, a espada, o elmo e o alforje para a deusa de olhos glaucos.

Veja também: http://laminaecoracao.blogspot.com.br/2013/02/a-sombra-e-o-mal-no-hobbit-de-j-r-r.html

Sobre os 41 anos da morte de J.R.R.Tolkien

Por: Rodrigo Passolargo

Estava refletindo sobre o dia de hoje, 02 de setembro de 2014,  e tentando entender ou até mesmo sentir algo como: perda, partida ou despedida envolvendo os 41 anos da morte do querido professor Tolkien. Não consegui. Me veio uma frase do conhecido Jonnhie Walker:

''Você também pode alcançar a imortalidade: basta fazer apenas uma coisa notável.''

Reformulando e pensei: ''Não só notável! Mas incrivelmente notável e prestes a perpetuidade''
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Tolkien tinha uma grande noção da morte, desde a perda do pai e sua ausência prematura, pois ele tinha apenas 4 anos, e principalmente a morte de Mabel, sua mãe, que desmaiou fatalmente em sua frente, com 12 anos de idade, e do irmão, com 10 anos. Nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, em que Tolkien travou a Batalha de Somme, ocorreu a maior perda diária na história do exército britânico, sendo 19 mil soldados ingleses mortos e 60 mil feridos no primeiro dia. Um dos amigos mais próximos de Tolkien estava entre os abatidos: Rob Gilson.
Logo viria outro amigo próximo (também do T.C, S.B), morto por estilhaços que gangrenaram todo o corpo: G.B. Smith. Mortes estas que, assim como a de outros companheiros de guerra, misturado ao odor de sangue e gritos de dor, balas e explosões foram efetivos ao atingir os sentimentos e a mente do professor.

Amigos como C.S. Lewis, com quem Tolkien compartilhava a formação do mundo da Terra-Média e muitos outros entes queridos, como sua amada esposa Edith, por quem desde jovem nutriu e conviveu com amor o ''até que a morte nos separe'', também compõem a visão dele sobre a perda, a dor e a morte.

Um reflexo aplicado é encontrado em suas obras, onde ele explicitamente fala:

''(...) A busca pelo poder é apenas o motivo-poder que coloca os eventos em andamento, e creio ser relativamente sem importância. A história diz respeito principalmente à Morte e à Imortalidade, e às “fugas”: longevidade serial e memória cumulada.''
(As Cartas de J.R.R.Tolkien, Carta n° 211)

O conflito da vida e morte que começa nas Terras Imortais. De Valar e Elfos até a finidade dos homens, onde Tolkien descreve com mistério, os Salões de Mandos e os Círculos do Mundo. Sua visão cristã e de fé - muito fundamentada pela mãe - era a principal responsável por fortalecer o laço com a vida na reflexão da morte. Além disso, existe a dádiva da ''imortalidade'' dos elfos e da perecidade vital dos homens (onde os mais nobres númenorianos poderiam escolher o dia para morrer, com honra e virilidade), que nas providências da vida, em meio as lutas, provações e dificuldades, mostra que aquilo que faz sua morte é a maneira como vive.

Em outra carta ele fala:
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''(...)Mas devo dizer, caso perguntado, que a história não é realmente sobre Poder e Domínio: isso apenas mantém as rodas girando; ela é sobre a Morte e o desejo pela imortalidade. Que não mais é do que dizer que esta é uma história escrita por um Homem!''
(As Cartas de J.R.R.Tolkien, Carta n° 203)

Tolkien quando escrevia e trabalhava suas criações em seu imaginário, conquistava uma herança élfica de imortalidade, transformando não só seu Legendarium e demais obras, como o mundo em sua volta. Perpetuar-se é criar uma raiz que marca e dá frutos ao mundo.

Não existe luto por Tolkien. Não existe luto por aquilo que está vivo. Por aquilo que solidificamos que tornamos notável, significativo e incrível para as pessoas por aquilo que é nosso legado (do latim legatum, -i, doação por testamento).

Finalizo em um pensamento que meu pai me disse quando era criança. Se não falho a memória, estava chorando pois via na tv uma reportagem sobre um acidente aéreo e, no desespero e pouca idade, pranteei ao ''cair na real'' que um dia eu e todos que amava iam partir. Ele me falou:

''Quando nasceu, todos em sua volta sorriam... só você chorava. Deves viver de tal maneira que, quando morrer, todos em sua volta chorem... e só você sorri.''

Até hoje essa frase me acalma.

Tradução de Tolkien do ”O Livro de Jonas” – Bíblia – será publicada!

O Livro de Jonas por Tolkien era um livro destinado a ser publicado em 2009 e incluiria o prefácio do filósofo inglês Sir Anthony Kenny. No entanto, por razões desconhecidas, a publicação foi cancelada (aparentemente devido a uma controvérsia jurídica).

Capa do livro que não foi publicada:
Capa do livro que não foi publicada

Mas agora teremos acesso ao texto!

A fundadora e editora-geral do Journal of Studies Inklings, Dra. Judith Wolfe explica que já era da ciência de todos que Tolkien traduziu o Livro de Jonas para The Jerusalem Bible (Bíblia de Jerusalém britânica), uma tradução Católica Romana das Sagradas Escrituras publicada nos anos 60. Mas a versão não foi publicada, e sim como um trabalho de colaboração de Tolkien, editado por um editor que tinha sido contratado para padronizar a gramática e vocabulário das várias traduções que foram reunidas na Jerusalem Bible.

Com a permissão da Tolkien Estate, o Journal of Inklings Studies agora irá tornar acessível a tradução ORIGINAL de Tolkien a partir dos manuscritos da biblioteca de Bodleian, onde estavam guardados. Um artigo de Brendan Wolfe, (acadêmico de Oxford especialista em linguística histórica, Editor Executivo do Journal of Inklings Studies) assinará um artigo sobre a história e demais aspectos que acompanhará a publicação. O volume especial será publicado em uma edição estritamente limitada.

Além da versão original de Tolkien e o artigo de Brendan Wolfe, a edição irá incluir artigos de pesquisa sobre CS Lewis, filosofia da criação de J.R.R. Tolkien e Charles Williams.

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Jonas é o nome de um livro bíblico do Antigo Testamento na qual Deus o teria mandado profetizar ao povo de Nínive para persuadi-los a se arrependerem ou seriam destruídos dentro de 40 dias. Mas, Jonas não quis ir. Por isso, embarcou num navio que ia na direção oposta. Deus não gostou de que profeta fugiu, e causou uma grande tempestade onde Jonas afundou na água e foi engolido por um grande peixe. Mas não morreu. Ficou três dias e três noites na barriga do peixe. Jonas orou a Deus, pedindo ajuda, então Ele fez o peixe vomitar Jonas em terra seca. então, Jonas foi para Nínive.

Fonte: http://judithwolfe.wp.st-andrews.ac.uk/tolkiens-jonah-text/

60 Anos de O Senhor dos Anéis

Em março de 1955, Tolkien responde para Dora Marshall, uma leitora de O Senhor dos Anéis:

‘’Tive uma grande dificuldade (levou vários anos) para conseguir publicar minha história, e não é fácil dizer quem está mais surpreso com o resultado: eu ou os editores! Mas continua um prazer inesgotável para mim ver minha própria crença justificada: a de que o “conto de fadas” é realmente um gênero adulto e para o qual existe um público faminto.’’

Tolkien realmente sacia e nos presenteia sempre com esse ‘’alimento’’ que engrandece a alma e mente. O Senhor dos Anéis foi um marco para a literatura mundial.
Quando foi publicado O Hobbit, Tolkien ainda estava influenciado pela ideia de que os contos de fadas eram naturalmente dirigidos para crianças, pois ele ainda tinha seus filhos como tais. Porém, o desejo de dirigir-se às crianças nada tinha vínculo com a história em si, como era ou o desejo de escrevê-la. Nisso, efeitos no modo de expressão e no método de narrativa mostram-se diferentes nas duas obras, O Hobbit e O Senhor dos Anéis

Mas em O Senhor dos Anéis, a obra não era especialmente para crianças ou qualquer outra classe, mas para qualquer um que apreciasse uma longa e épica história do mesmo jeito que o autor apreciava.
Com o objetivo primário de escrever uma história que instigasse, agradasse, e na situação certa, comovesse, a obra certamente recebeu seu devido crédito literário por seu mundo imaginário. Com a prerrogativa de entreter, mas sendo uma obra dentro do seu vasto legendarium, é um conto de fadas – de acordo com seu ensaio On Fairy-Stories – pois o conceito do professor era que o conto de fadas possui seu próprio modo de refletir a verdade, de maneira diferente da sátira, da alegoria ou do próprio ‘’realismo’’ bem mais presente.

Tudo começa em um almoço marcado em outubro de 1937 pelo seu editor Stanley Unwin sobre uma ‘’continuação’’ de O Hobbit. Tolkien o mostra alguns de seus escritos, entre eles As Cartas do Papai Noel, a versão em prosa do Quenta Silmarillion, a versão inacabada d’A Aventura de Beren e Lúthien e já tinha oferecido anteriormente Mr. Bliss. Stanley não descartou os escritos, mas respondeu em dezembro do mesmo ano que necessitava de uma história sobre hobbits. No mesmo mês e aproveitando as férias de natal, ausência de provas para corrigir e poucas tarefas administrativas, o professor termina o que seria a primeira versão do quase não alterado primeiro capítulo Uma Festa Muito Esperada.
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Combinado que fosse lido pelo filho de Stanley, Rayner Unwin (o mesmo que leu e aprovou O Hobbit), o primeiro capítulo é enviado e é considerado praticamente como um ‘’capítulo extra’’ de O Hobbit, agradando a editora.

Começa então a ser criada a espinha dorsal da obra, onde o anel teria importância central no enredo, Sauron, Senhor do Escuro começam a ter maior relevância, assim como a importância do bem e o mal na Terra Média. É assim que começa um dos capítulos mais explicativos e âncoras da trama: A Sombra do Passado.
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Escrevendo para Caroline Everett, Tolkien explica um pouco sobre essa fase:

‘’A idéia geral do Senhor dos Anéis certamente estava em minha mente desde um estágio inicial: isto é, desde o primeiro rascunho do Livro I Capítulo 2, escrito nos anos trinta. De tempos em tempos eu fazia esboços grosseiros ou sinopses do que viria a seguir, imediatamente ou mais adiante; mas estes raramente eram de muito uso: a história desenrolou-se por si mesma, por assim dizer. A amarração das pontas foi alcançada, até onde pode ser alcançada, por uma reescrita constante do fim para o início. Eu tinha um calendário de muitas colunas com datas e um breve relato de onde todos os atores ou grupos principais estavam em cada dia e o que estavam fazendo.’’
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Esse seria um início bastante fértil para todo os Inklings (Lewis também acabara de editar dois livros e escrito Além do Planeta Misterioso).

Em carta para Para Christopher Bretherton em 1964, ele explica que ’o anel mágico era a única coisa óbvia em O Hobbit que poderia ser relacionada com minha mitologia. Para ser o fardo de uma história grande, teria de ser de suprema importância. Liguei-o então à referência (originalmente) deveras casual ao Necromante, final do Cap. vii e Cap. xix, cuja função dificilmente era mais do que fornecer uma razão para Gandalf ir embora e deixar Bilbo e os Anões para se defenderem sozinhos, o que foi necessário para a história. De O Hobbit também são derivadas a história dos Anões, Durin, seu ancestral primordial, e Moria; e Elrond. A passagem no Cap. iii relacionando-o aos Meio-elfos da mitologia foi um feliz acidente, devido à dificuldade de constantemente inventar bons nomes para novos personagens. Dei-lhe o nome Elrond casualmente, mas como este vem da mitologia (Elros e Elrond, os dois filhos de Earendel), tornei-o meio-elfo. Apenas em O Senhor dos Anéis ele foi identificado com o filho de Earendel, e assim o bisneto de Lúthien e Beren, um grande poder e um Portador de Anel. Outro ingrediente, não mencionado antes, também entrou em operação em minha necessidade de fornecer uma grande função para Passolargo-Aragorn. O que posso chamar de minha assombração de Atlântida. Essa lenda ou mito ou lembrança turva de alguma história antiga sempre me incomodou. Ao dormir eu tinha o terrível sonho da Onda inelutável, ou saindo do mar calmo, ou elevando-se sobre as verdejantes terras do interior. Ele ainda ocorre ocasionalmente, apesar de agora exorcizado por escrever sobre ele. Ele sempre termina em capitulação, e acordo ofegando ao sair de águas profundas. Eu costumava desenhá-lo ou escrever poemas sobre ele.’’
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Com esses elementos-âncora, o acadêmico de Oxford começa a destrinchar a sua obra de maior sucesso.

Entretanto,, muitos momentos interromperam todo o processo de criação da obra, como o falecimento de seu amigo Eric Gordon (1937), as muitas provas para corrigir e seu trabalho constante, a vinda de uma guerra mundial, Michael Tolkien doente (1941). Até ali, não existiam Lothlórien, Rohan, e Barbávore era uma figura hostil que aprisionava Gandalf ao invés de Saruman.

Para Tolkien, a segunda metade de 1943 foi o pior momento para a criação de sua grande história. Capturado pelos pequenos detalhes, ficou confuso com enredo que criaria. Nesse momento ele escreve o conto ‘’Folha por Niggle’’ que, segundo Priscilla Tolkien seria um retrato de maneira catártica, mas de sentido libertador, da situação de sua obra inacabada durante vida.

No início de 1944, o professor segue firme e chega no final de As Duas Torres, com Aragorn e Gandalf na frente das batalhas e Merry e Pippin engajados no enredo. Mas no segundo semestre desse ano, Tolkien paralisa seu livro outra vez, e por mais de um ano (o maior hiato desde que havia começado).
O término da guerra em 1945, a volta de seu filho Christopher para a graduação, nomeação para professor de Língua e Literatura Inglesa em Merton, e a venda da casa em Northmoor Road e a mudança para a pequena, moderna casa com um não confortável escritório no número 3 da Manor Road, foram alguns dos principais motivadores deste hiato.pony

Mesmo assim, termina seus escritos em 1947 e passa os próximos dois anos reescrevendo, editando, e amarrando as histórias, voltando várias vezes na narrativa até perceber que estava pronto para ser lido. E C.S.Lewis leu, mesmo já ter ouvido a maior parte da obra nas reuniões dos Inklings. Tanto o criador de Nárnia quanto seu irmão Warnie acharam a história incrível!

Para publicação houveram mais dificuldades, como: Tentativa de ter o Silmarillion publicado junto com O Senhor dos Anéis; Não aceitação do livro ser dividido em três; Idas e voltas com o editor; Mudanças de moradia; carga intensa de trabalho; revisões do livro e outros. Até que Tolkien aceitou a divisão da obra em três volumes, revisando mais uma vez, criando capas e sobrecapas e com a ajuda do filho Christopher no preparo dos mapas. Tolkien sabia que essa seria uma obra maior do que ele esperava, e essa consciência se tornou realidade. O ciúme pela obra em especial era nítido através do acompanhamento direto e constante para qualquer alteração, edição, rearranjo ou resumos do texto, sempre pedindo para os editores que essa preocupação fosse levada em consideração.
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No meio de tantos obstáculos, a obra nasceu com a maestria de um grande mito. Publicada em 29 de Julho de 1954 e chegando em agosto do ano nas livrarias, O Senhor dos Anéis – A Sociedade Do Anel tornou-se um marco para a literatura e o gênero.

Mais que uma obra viva, a obra é um mito refletindo a verdade através do conto de fada. Esses 60 anos de O Senhor dos Anéis é um reflexo que ele vive através de sua criação assim como a vida dos Eldar. Sessenta anos é idade de uma criança se relacionada a imortalidade em que se engaja.

Finalizamos com uma carta de 1955 para Houghton Mifflin Co., que expressa a gratidão de Tolkien pela história da demanda do Um Anel e o destino dos Homens contada pelos hobbits:
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’Nada me surpreendeu mais (e acredito que aos meus editores) do que a recepção dada a O Senhor dos Anéis. Porém, essa obviamente é uma fonte constante de consolo e prazer para mim. E, posso dizer, um pedaço de boa sorte singular, muito invejada por alguns de meus contemporâneos. Pessoas maravilhosas ainda compram o livro, e para um homem “aposentado” isso é agradável e confortante.’’

Obrigado, Professor Tolkien.

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Bibliografia:
CARPENTER, Humphrey; TOLKIEN, Christopher. As Cartas de J.R.R.Tolkien. Curitiba: Arte & Letra, 2006
CARPENTER, Humphrey. J.R.R.Tolkien: Uma Biografia. São Paulo: Martins Fontes, 1992
TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. São Paulo: Martins Fontes, 2002
WHITE, Michael. J.R.R.Tolkien - O Senhor da Fantasia. Rio de Janeiro: Darkside, 2013

The Tolkienaeum: Ensaios sobre J.R.R. Tolkien e seu Legendarium

The Tolkienaeum, (Mark T. Hooker) é uma nova coleção de ensaios que exploram diversas facetas da obra de Tolkien. Hooker foi homenageado em 2012 com o Beyond Bree Award, um prêmio dado pela publicação Beyond Bree em reconhecimento de contribuições relevantes para o estudo de J.R.R. Tolkien. The Tolkienaeum é o quarto volume sobre a obra de Tolkien de autoria do Mark Hooker.
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Especialista em Tradução Comparativa, Hooker mostra que sua obra tem uma perspectiva linguística, começando pela ótica filológica e suas histórias com o qual Tolkien era familiar. Essa é a essência do Tolkiennymy, expressão criada por Hooker para a linguística de Tolkien.

O ensaio de abertura compara as semelhanças entre as tramas de clássico de Júlio Verne ''Viagem ao Centro da Terra'' e ''O Hobbit'' . A batalha de Agincourt (na Guerra dos Cem Anos) e o papel que desempenhou na arquearia no legado do imaginário inglês são contrastadas com a Batalha de Fornost e o envio de arqueiros hobbits.

Por mais que a palavra/raça Hobbit seja uma criação de Tolkien, os ensaios buscam uma fonte para a referida palavra, que foram expostas primeiramente em Beyond Bree e ampliadas para este volume.

O que é diferente sobre esses ensaios é que eles são de um linguista que compartilha valorização de histórias de texto de Tolkien, e que joga no mesmo tipo de invenção linguística que Tolkien apreciavaEnquanto os ensaios são linguística, eles foram escritos com a ''não-linguista'' em mente. Os jargões inevitáveis do campo são explicado em um glossário, e a narrativa dá uma visão não-técnica de como línguas sintéticas de Tolkien se encaixam no quadro geral da linguística.

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Uma característica especial da segunda metade deste volume é a compreensão e uso de proto-indo-europeu (PIE) nas raízes de Tolkien. O ensaio sobre a Tolkiennymy para a palavra lobo, por exemplo, revela uma raiz PIE se escondendo e não reconhecida na famosa obra As EtimologiasDestacando, explicando e revelando não só as habilidades que de Tolkien, mas também a habilidade linguística que era obrigado a fazer.

O amplo conhecimento de Tolkien nas questões mito-linguística é explorado em um ensaio que explora que, nas línguas indo-europeias primeiramente haviam uma distinção entre animado e inanimado, conceito desenvolvido pelo linguista francês Antoine Meillet (1866-1936), que observou que os gêneros masculino e feminino designavam os seres animados, do sexo macho e fêmea e, o inanimado, compreendia o neutro. Embora não haja menção de Meillet na doutrina de Tolkien, há características do linguista francês na linguista de Tolkien.

Há ensaios separados no uso do eslavo e raízes finlandesas na obra de Tolkien. Embora existam ensaios sobre Tolkiennyms individuais com base em raízes galesas, não há ensaio do welsh em separado (o ''welsh'' é uma ramificação das línguas celtas faladas nativamente no País de Gales). Esse foi o tema do volume anterior a esta coletânea: Tolkien and Welsh.

Tolkien justamente observou que muitos sobrenomes em ''inglês'', que vão desde os mais raros até os mais familiar, são linguisticamente derivado de Galês (ou britânico), a partir de nomes de lugares, patronímicos, nomes pessoais, ou nick-names, ou são, em parte, de modo derivado, mesmo quando a origem não é exata. A etimologia para o sobrenome Gamgee é um desses casos. (ver nosso texto sobre ''Gamgee'' AQUI)

Invenção linguística é um produto da mente, portanto, não regido pelas regras fixas e imutáveis ​​das ciências. Como Albert Einstein disse uma vez: "A imaginação é maior do que o conhecimento.''

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Este livro combina os dois ensaios anteriormente publicados e não publicados, para reunir a obra do autor em um volume conveniente. A maioria dos ensaios publicados foram especialmente revisadas e ampliada para essa obra.

Bibliografia:

HOOKER, Mark T. Beyond Bree. USA: CreateSpace, 2012
HOOKER, Mark T. The Hobbitonian Anthology: of Articles on J.R.R. Tolkien and his Legendarium. USA: CreateSpace, 2009
<http://middleearthnews.com/2014/06/20/the-tolkienaeum-by-mark-t-hooker-explores-many-aspects-of-tolkien/> acesso em: 22 de Junho de 2014
SILVEIRA, Jane Ramos. Masculino e Feminino? A Categoria Gramatical de Gênero e a Teoria do Valor. Campinas. Unicamp, 2010