”Qual o propósito da vida?”, por J.R.R.Tolkien

Em 20 de maio de 1969 – há 45 anos – Tolkien escreveu uma carta para Camilla Unwin, filha de Rayner Unwin. Rayner foi aquele garoto de 10 anos filho do editor Stanley Unwin que leu os manuscritos de O Hobbit, opinando/aprovando sua publicação ao pai. Logo após uma semana, a editora George Allen and Unwin escreveu a Tolkien o interesse em publicar o livro.

Com a finalidade de concluir um trabalho escolar, Camilla escreveu e perguntou para Tolkien: ”Qual o propósito da vida?” Eis que Tolkien responde em sua carta 310:


”Cara Srta. Unwin,
Lamento que minha resposta tenha se atrasado. Espero que ela chegue à senhorita a tempo. Que pergunta tão ampla! Não creio que “opiniões”, não importando a quem pertençam, sejam de muita utilidade sem alguma explicação de como se chegou a elas;  mas sobre esta pergunta não é fácil ser breve.

O que a pergunta realmente significa? Tanto Propósito como Vida necessitam de alguma definição. É uma pergunta puramente humana e moral ou ela se refere ao Universo? Ela  poderia significar: Como eu deveria tentar usar o tempo de vida que me é concedido? OU: A que propósito/desígnio os seres vivos servem por estarem vivos? A primeira pergunta, no entanto, só encontrará uma resposta (caso haja alguma) após a segunda ter sido considerada. Creio que perguntas sobre “propósito” só são realmente úteis quando se referem aos propósitos ou objetivos conscientes dos seres humanos, ou aos usos das coisas que planejam e criam. Quanto às “outras coisas”, seu valor reside em si mesmas: elas SÃO, elas existiriam mesmo que não existíssemos. Mas uma vez que existimos, uma de suas funções é a de serem contempladas por nós. Se subirmos a escala do ser até “outros seres vivos”, tais como, digamos, alguma planta pequena, ela apresenta forma e organização: um “padrão” reconhecido (com variações) em sua família e prole; e isso é muito interessante, pois essas coisas são “outras” e não as criamos, e elas parecem provir de uma fonte de invenção incalculavelmente mais rica do que a nossa.

A curiosidade humana logo faz a pergunta COMO: de que modo isso passou a existir? E visto que o “padrão” reconhecível sugere desígnio, pode passar para POR QUE? Mas POR QUE, nesse sentido, que implica razões e motivos, só pode se referir a uma MENTE. Apenas uma Mente pode ter propósitos de qualquer modo ou grau parecidos com os propósitos humanos. De maneira que imediatamente qualquer pergunta: “Por que a vida, a comunidade de seres vivos, apareceu no Universo físico?” introduz a pergunta: Existe um Deus, um Criador-Planejador, uma Mente a qual nossas mentes se assemelham (sendo derivadas dela), de modo que Ela nos é parcialmente inteligível? Com isso chegamos à religião e às idéias morais que provêm dela. Dessas coisas direi apenas que a “moral” possui dois lados, derivados do fato de que somos indivíduos (como em determinado grau o são todos os seres vivos) mas que não vivemos, não podemos viver, em isolamento e que possuímos um elo com todas as outras coisas, cada vez mais próximo do elo absoluto com nossa própria espécie humana.

Assim, a moral deveria ser um guia para nossos propósitos humanos, a conduta de nossas vidas: (a) os modos pelos quais nossos talentos individuais podem ser desenvolvidos sem desperdício ou uso impróprio; e (b) sem ferir nossos parentes ou interferir em seu desenvolvimento. (Para além disto e em uma posição mais elevada situa-se o sacrifício de si mesmo por amor.)

Mas essas são apenas respostas para a pergunta menor. Para a maior não há resposta, porque isso requer um conhecimento completo de Deus, o que é inatingível. Se perguntarmos por que Deus nos incluiu em seu Desígnio, realmente não podemos dizer mais do que porque Ele assim o Fez.

Se você não acredita em um Deus pessoal, a pergunta: “Qual é o propósito da vida?” é impossível de ser feita e respondida. A quem ou a que você dirigiria a pergunta? Mas visto que em um canto estranho (ou cantos estranhos) do Universo as coisas se desenvolveram com mentes que fazem perguntas e tentam respondê-las, você poderia mencionar uma dessas coisas peculiares. Como uma delas, eu ousaria dizer (falando com arrogância absurda em nome do Universo): “Sou como sou. Não há nada que você possa fazer a respeito. Você pode continuar tentando descobrir o que sou, mas jamais terá sucesso. E por que você quer saber, eu não sei. Talvez o desejo de saber pelo mero conhecimento em si esteja relacionado com as preces que alguns de vocês dirigem ao que vocês chamam de Deus. Na melhor das hipóteses, essas preces parecem simplesmente louvá-Lo por Ele ser como é, e por fazer o que Ele fez, tal como Ele o fez”.

Aqueles que acreditam em um Deus, em um Criador pessoal, não acham que o Universo em si é digno de adoração, embora o estudo devotado dele possa ser um dos modos de honrá-Lo. E enquanto estivermos, como criaturas vivas que somos (em parte), dentro dele e formos parte dele, nossas idéias de Deus e as maneiras de expressá-las serão em grande parte derivadas da contemplação do mundo ao nosso redor. (Embora também haja revelações dirigidas tanto a todos os homens como a pessoas em particular.)

Assim, pode-se dizer que o principal propósito da vida, para qualquer um de nós, é aumentar, de acordo com nossa capacidade, nosso conhecimento de Deus por todos os meios que tivermos, e ficarmos comovidos por tal conhecimento para louvar e agradecer. Para fazer como dizemos no Gloria in Excelsis: Laudamus te, benedicamus te, adoramus te, glorificamus te, gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam. Louvamo-te, santificamo-te, adoramo-te, glorificamo-te, agradecemo-te pela grandeza de teu esplendor.

E em momentos de exaltação, podemos apelar a todas as coisas criadas para que se unam ao nosso coro, falando em nome delas, como é feito no Salmo 148 e n’A Canção das Três Crianças, em Daniel II. LOUVADO SEJA O SENHOR . . . todas as montanhas e colinas, todos os pomares e florestas, todas as coisas que rastejam e os pássaros em vôo.
Isso é longo demais, e também curto demais — para semelhante pergunta.

Com os melhores votos
J. R. R. Tolkien.”
(CARPENTER, Humphrey; TOLKIEN, Christopher. As Cartas de J.R.R.Tolkien. Curitiba: Arte & Letra, 2006. p 377)