42 anos sem Tolkien: Amor, Vida e Morte.

Podemos pensar sobre a vida sem pensar na morte? E ao contrário, seria? Nesses 42 anos sem a presença física do pai da literatura fantástica moderna, gostaríamos de expor algumas palavras do ilustre professor para refletirmos.

Ao final de sua vida, J. R. R. Tolkien foi impossibilitade por algumas semanas de usar seu braço direito. Ele confessou ao seu editor: “Percebi que não ser capaz de usar uma caneta ou um lápis é para mim tão frustrante quanto seria a perda do bico para uma galinha”.

Essa já seria uma grande e triste noção da morte: a incapacidade (ou possibilidade) de não poder fazer o que realmente ama.
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Tolkien tinha uma grande noção da morte
, desde a perda do pai e sua ausência prematura, pois ele tinha apenas 4 anos, e principalmente a morte de Mabel, sua mãe, que desmaiou fatalmente em sua frente, com 12 anos de idade, e do irmão, com 10 anos. Nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, em que Tolkien travou a Batalha de Somme, ocorreu a maior perda diária na história do exército britânico, sendo 19 mil soldados ingleses mortos e 60 mil feridos no primeiro dia. Um dos amigos mais próximos de Tolkien estava entre os abatidos: Rob Gilson.
Logo viria outro amigo próximo (também do T.C, S.B), morto por estilhaços que gangrenaram todo o corpo: G.B. Smith. Mortes estas que, assim como a de outros companheiros de guerra, misturado ao odor de sangue e gritos de dor, balas e explosões foram efetivos ao atingir os sentimentos e a mente do professor.

Amigos como C.S. Lewis, com quem Tolkien compartilhava a formação do mundo da Terra-Média e muitos outros entes queridos, como sua amada esposa Edith, por quem desde jovem nutriu e conviveu com amor o ''até que a morte nos separe'', também compõem a visão dele sobre a perda, a dor e a morte.

Um reflexo aplicado é encontrado em suas obras, onde ele explicitamente fala:

''(...) A busca pelo poder é apenas o motivo-poder que coloca os eventos em andamento, e creio ser relativamente sem importância. A história diz respeito principalmente à Morte e à Imortalidade, e às “fugas”: longevidade serial e memória cumulada.''
(As Cartas de J.R.R.Tolkien, Carta n° 211)

O conflito da vida e morte que começa nas Terras Imortais. De Valar e Elfos até a finidade dos homens, onde Tolkien descreve com mistério, os Salões de Mandos e os Círculos do Mundo. Sua visão cristã e de fé - muito fundamentada pela mãe - era a principal responsável por fortalecer o laço com a vida na reflexão da morte. Além disso, existe a dádiva da ''imortalidade'' dos elfos e da perecidade vital dos homens (onde os mais nobres númenorianos poderiam escolher o dia para morrer, com honra e virilidade), que nas providências da vida, em meio as lutas, provações e dificuldades, mostra que aquilo que faz sua morte é a maneira como vive.

Em outra carta ele fala:
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''(...)Mas devo dizer, caso perguntado, que a história não é realmente sobre Poder e Domínio: isso apenas mantém as rodas girando; ela é sobre a Morte e o desejo pela imortalidade. Que não mais é do que dizer que esta é uma história escrita por um Homem!''
(As Cartas de J.R.R.Tolkien, Carta n° 203)

Mas se estamos fadados a morrer, qual seria o propósito da vida?

Tolkien respondeu essa pergunta, feita por Camilla Unwin, filha de Rayner Unwin. Rayner foi aquele garoto de 10 anos filho do editor Stanley Unwin que leu os manuscritos de O Hobbit:

"O que a pergunta realmente significa? Tanto Propósito como Vida necessitam de alguma definição. É uma pergunta puramente humana e moral ou ela se refere ao Universo? Ela  poderia significar: Como eu deveria tentar usar o tempo de vida que me é concedido? OU: A que propósito/desígnio os seres vivos servem por estarem vivos? A primeira pergunta, no entanto, só encontrará uma resposta (caso haja alguma) após a segunda ter sido considerada. Creio que perguntas sobre “propósito” só são realmente úteis quando se referem aos propósitos ou objetivos conscientes dos seres humanos, ou aos usos das coisas que planejam e criam. Quanto às “outras coisas”, seu valor reside em si mesmas: elas SÃO, elas existiriam mesmo que não existíssemos. Mas uma vez que existimos, uma de suas funções é a de serem contempladas por nós. Se subirmos a escala do ser até “outros seres vivos”, tais como, digamos, alguma planta pequena, ela apresenta forma e organização: um “padrão” reconhecido (com variações) em sua família e prole; e isso é muito interessante, pois essas coisas são “outras” e não as criamos, e elas parecem provir de uma fonte de invenção incalculavelmente mais rica do que a nossa.
(...)
De maneira que imediatamente qualquer pergunta: “Por que a vida, a comunidade de seres vivos, apareceu no Universo físico?” introduz a pergunta: Existe um Deus, um Criador-Planejador, uma Mente a qual nossas mentes se assemelham (sendo derivadas dela), de modo que Ela nos é parcialmente inteligível? 
(...)
J.R.R._Tolkien_smiling

Se você não acredita em um Deus pessoal, a pergunta: “Qual é o propósito da vida?”é impossível de ser feita e respondida. A quem ou a que você dirigiria a pergunta? Mas visto que em um canto estranho (ou cantos estranhos) do Universo as coisas se desenvolveram com mentes que fazem perguntas e tentam respondê-las, você poderia mencionar uma dessas coisas peculiares. Como uma delas, eu ousaria dizer (falando com arrogância absurda em nome do Universo): “Sou como sou. Não há nada que você possa fazer a respeito. Você pode continuar tentando descobrir o que sou, mas jamais terá sucesso. E por que você quer saber, eu não sei. Talvez o desejo de saber pelo mero conhecimento em si esteja relacionado com as preces que alguns de vocês dirigem ao que vocês chamam de Deus. Na melhor das hipóteses, essas preces parecem simplesmente louvá-Lo por Ele ser como é, e por fazer o que Ele fez, tal como Ele o fez”.

Aqueles que acreditam em um Deus, em um Criador pessoal, não acham que o Universo em si é digno de adoração, embora o estudo devotado dele possa ser um dos modos de honrá-Lo. E enquanto estivermos, como criaturas vivas que somos (em parte), dentro dele e formos parte dele, nossas idéias de Deus e as maneiras de expressá-las serão em grande parte derivadas da contemplação do mundo ao nosso redor. (Embora também haja revelações dirigidas tanto a todos os homens como a pessoas em particular.)

Assim, pode-se dizer que o principal propósito da vida, para qualquer um de nós, é aumentar, de acordo com nossa capacidade, nosso conhecimento de Deus por todos os meios que tivermos, e ficarmos comovidos por tal conhecimento para louvar e agradecer. Para fazer como dizemos no Gloria in Excelsis: Laudamus te, benedicamus te, adoramus te, glorificamus te, gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam. Louvamo-te, santificamo-te, adoramo-te, glorificamo-te, agradecemo-te pela grandeza de teu esplendor."
(As Cartas de J.R.R.Tolkien - Carta 310 para Camilla Unwin)

Não existe luto por Tolkien. Não existe luto por aquilo que está vivo. Por aquilo que solidificamos que tornamos notável, significativo e incrível para as pessoas por aquilo que é nosso legado.

Legado. Meu amigo e inspirador estudioso/escritor Heráclito Aragão a deu justa ênfase num pequeno texto sobre Tolkien ano passado. Seria injusto terminar esse texto sem essa palavra, que vêm do latim legatum: doação por testamento. Com a morte de Tolkien, ele nos doa até antes de partir vários ensinamentos, conhecimentos e vínculos. Uma vida dedicada à literatura e família. Nos deixa amor.
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Uma vida dedicada ao amor que lemos hoje. Obrigado, J.R.R.Tolkien.

[Rodrigo Passolargo é atual presidente do Conselho Branco Sociedade Tolkien. Diretor da Fábrica do Mito e Palestrante/estudioso da literatura fantástica]

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