Westeros e o Faërie de Tolkien

(Por Heráclito Aragão Pinheiro)

Pode parecer estranho a princípio, mas a leitura dos livros de George Martim me remete fortemente à infância. Em tempo, quando tinha nove anos, costumava gastar horas e horas lendo livros de história, fascinado com a estranheza e exotismo das civilizações do passado. Havia algo de quase mágico em olhar para o passado e descobrir novos mundos em nosso mundo, separados de nós não apenas pela distância geográfica, mas por séculos, algumas vezes milênios sem fim. A Mesopotâmia com seus zigurates, deuses de nomes estranhos, reis guerreiros e seu idioma escrito em caracteres cuneiformes. A beleza do Egito, com suas escritas demótica e hieroglífica, templos, pirâmides, arquitetura colossal, inúmeros deuses e sua permanente preocupação com a morte e a ressurreição. O medievo europeu, repleto de castelos, cavaleiros em armadura e invasões e guerras sem fim travadas com o entrechoque de escudos e espadas, ou suas justas com lanças se despedaçando contra escudos e elmos. A cada página que eu lia, a cada ilustração que eu observava avidamente, era transportado no tempo e no espaço. Eu não sabia bem a época, mas, quando eu lia todas essas coisas, eu não estava visitando o passado, res gestae, coisa para sempre perdida, mas esses foram os meus primeiros passeios pelo reino perigoso, por FAËRIE. Tolkien assim o descreveu, eu traduzo:
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"FAËRIE é uma terra perigosa, e possui armadilhas para os desavisados e calabouços para os por demais ousados... O reino das histórias-de-fadas é vasto e profundo e elevado e repleto com muitas coisas: todos os tipos de bestas e pássaros são encontrados aqui, mares sem fim e estrelas sem conta; uma beleza que encanta, e um perigo sempre presente, ambos, contentamentoe tristeza, tão afiados como espadas. Nesse reino um homem talvez possa considerar-se afortunado por ter vagado, mas sua própria riqueza e estranheza amarram a língua do viajante que iria narrá-las. E, enquanto está lá, é perigoso para ele fazer perguntas em demasia, para que o portão não seja fechado e as chaves perdidas."

Assim como eu, Martin costumava passear por essas bandas do reino perigoso, que parecem evocar nosso passado distante e as pessoas e construções, deuses e demônios que ali habitavam. Diferente de outros viajantes, todavia, ele se arriscou a fazer perguntas, sua língua não esteve tão presa pelo encanto e glamour de FAËRIE, e ele pôde narrar as maravilhas que viu. Para outros viajantes como eu, que ainda carregam um pouco da poeira das estradas desse reino inóspito e maravilhoso, alguns dos locais descritos por Martin soam familiares.

Westeros, com seus cavaleiros de armadura, galantes, corajosos, testando suas virtudes guerreiras em justas com lanças, castelos feitos de pedra, seus lordes e camponeses, lembra a velha Europa. Não o velho continente, mas a “idade das trevas”, as canções de cavalaria, os contos sobre paladinos e damas inacessíveis, as aventuras e desventuras de Lancelot. Vemos nos Sete Reinos o medievo, mas sem a incômoda igreja católica e seu já decadente cristianismo – preso em fatal anacronismo de crer literalmente nas histórias de jardim de infância de cobras falantes e paraísos terrestres. Recordo-me, igualmente, de me encantar com um passado ainda mais distante, quase mítico, onde homens, na aurora da humanidade, conviviam em meio ao gelo eterno, com feras que pareciam saídas de contos de fadas: mamutes, tigres dentes de sabre... No extremo norte de Westeros nos deparamos com essas mesmas feras, ainda vivendo ao lado de homens quase selvagens que enfrentam diariamente a fúria dos elementos.

Valyria, com sua poderosa feitiçaria, lâminas encantadas e dragões, é um reflexo da glória de Roma e da pax romana. Um povo conquistador, que impôs sua língua e seus costumes aos povos sob seu domínio, que construiu estradas feitas para durarem milênios sem fim, e cuja glória findou em ruína e destruição. Esse mesmo povo, contando com apenas 500 soldados e três dragões, conquistou os Sete Reinos sem grande dificuldade.

Os Dotrhaki, sempre montados em seus cavalos, desnudos, bravos e ferozes, temidos como quase imbatíveis em combate, são uma mistura dos hunos que aterrorizaram a decadente Roma e dos Mongóis de Gengis Khan que invadiram a China.

A decadente Astapor, com suas pirâmides de degraus lembra as minhas andanças pela Mesopotâmia às margens dos rios Tigres e Eufrates, seus jardins suspensos, imensos palácios, muralhas colossais e exércitos de incontáveis soldados.

Os canais de Bravos, com seus duelistas, dançarinos da água, são parentes próximos dos três mosqueteiros, de Cyrrano, e do imortal Zorro. Bravos é a verdadeira Veneza, da qual a nossa Veneza não passa de pálida sombra.

Os dragões merecem um comentário em separado. Tolkien, ao discorrer sobre Bewolf, discordou de seus críticos. Para os críticos, o dragão em Bewolf era um problema, uma excrescência; o pai de Bilbo e Frodo via de forma diferente: em Bewolf, o dragão era indispensável. Mais do que mera alegoria da cobiça, aquela fera de escamas mais duras que ferro e hálito de fogo era um verdadeiro Wyrm, e o único adversário digno do velho rei nórdico, trágico como os deuses nórdicos, fadados a uma última batalha que jamais poderiam vencer. Em Westeros, os dragões encarnam a magia, eles são a face mais palpável de FAERIE, seu encanto e perigo, a natureza indômita da magia, tão sedutora quanto perigosa.
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Eu diria, assim como os especialistas em literatura já disseram sobre o romance O Cortiço, que nenhum dos personagens que habita a terra maravilhosa de Westeros é o protagonista desta história. Não, o verdadeiro protagonista é Westeros e, para além de suas fronteiras, o mundo repleto de terror e beleza em que esses personagens habitam, eis o protagonista imortal e imbatível da Canção de Gelo e Fogo!

[Heráclito Aragão é mestre em psicologia, escritor do livro Obakemono, palestrante e estudioso do gênero fantástico . É Coord. Cultural da Toca CE.]

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