Uma interpretação Psicológica do Anel do Poder nas histórias de J. R. R. Tolkien

(O referido texto é somente a metade da análise/artigo original. Heráclito Aragão é Coordenador Cultural da Toca CE/Conselho Branco Sociedade Tolkien. Historiador, mestre em Psicologia e escritor, com diversos estudos sobre Tolkien, mitologia e psicologia)

Uma interpretação Psicológica do Anel do Poder nas histórias de J. R. R. Tolkien

''One for the Dark Lord on his dark throne
In the Land of Mordor where the Shadows lie.
One Ring to rule them all, One Ring to find them,
One Ring to bring them all and in the darkness bind them
In the Land of Mordor where the Shadows lie.''

Creio que a trilogia O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, bem como seu antecessor, O Hobbit dispensa maiores apresentações. Mesmo antes dos filmes dirigidos por Peter Jackson, a saga escrita pelo pacato professor de Oxford já era conhecida e amada por milhões no mundo todo. Em meu livro A Sombra e o Mal no Hobbit (no prelo) fiz uma interpretação psicológica dessa obra, sem, contudo, me aprofundar em dois aspectos importantes: Gandalf e o Um anel. No que concerne ao Anel do Poder, como ele desempenha um papel importante, mas discreto em O Hobbit (como sua própria natureza mágica que concede invisibilidade) e se reveste de maior relevo e importância na aventura que foi a continuação dessa obra, preferi deixar para tratar sobre seu simbolismo posteriormente, pois, para fazê-lo, teria que me reportar constantemente à referida trilogia o que estava fora do escopo do meu trabalho, mas pretendo fazê-lo aqui, me reportando principalmente a trilogia e, no que concerne ao O Hobbit tratar do momento em que Bilbo adquire o Anel, as “advinhas no escuro”.
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Uma interpretação psicológica requer alguma explicação preliminar ao público leigo em psicologia, um pequeno mapa do que pretendo fazer aqui. É de bom tom começar aludindo a um fato fundamental no que concerne a esse tipo de empreitada, toda interpretação psicológica é um obscurecimento da luz original daquilo que ela procura interpretar, a verdade sobre o Um Anel está contida em sua inteireza na obra de Tolkien, a arte do intérprete jamais será capaz de superar o enlevo estético, intelectual e emocional que a obra é capaz de proporcionar aos seus leitores, mas então por que fazer uma tal análise? Responderei a isso em breve estimado leitor, peço-lhe um pouco de paciência e caridade de sua parte para com esse escrito, você não se desapontará.

Antes de responder a pergunta que eu suponho você está se fazendo nesse exato momento, pretendo explicar – sucintamente – como se faz uma interpretação psicológica, e, especificamente, como farei esta interpretação, ou seja, sobre o Um Anel.

Marie-Louise Von Franz principia o seu A Interpretação dos Contos de Fadas justamente expondo o método Junguiano. Como asseverei anteriormente, um conto de fadas, mito, ou, em nosso caso, uma obra literária de elevado valor simbólico, é, em si mesma, sua melhor explicação, ou, dito de outro modo, seu significado está contido na totalidade dos temas que ligam o fio da história. O significado psicológico essencial do Anel (que o intuito desse trabalho procura desvelar) é expresso nas figuras e eventos simbólicos que estão presentes na obra e pode ser desvendado por meio deles. O intuito do interprete, no caso de uma análise de cunho psicológico, é procurar perceber o que essas figuras e eventos simbólicos nos dizem do pano de fundo psíquico inexpresso. Na linguagem da psicologia, procuramos perceber, entre outras coisas, a estrutura arquetípica da história. Um arquétipo, no entender de Jung, é uma categoria da fantasia, uma pré-disposição para produzir um comportamento humano típico (ou, ainda, uma disposição estrutural básica para produzir uma certa narrativa mítica), entretanto, ele é, fundamentalmente, um fator psíquico desconhecido, impossível de ser traduzido em termos meramente intelectuais. O arquétipo pode, em certo sentido, ser compreendido como um mitologema, a estrutura fundamental dos eventos e figuras simbólicas de que falávamos, mas o simples fato de sermos capazes de apontar o mitologema que se expressa nessa ou aquela história não nos serve a guisa de interpretação psicológica, não passa de um juízo analítico que não contribui muito para a nossa compreensão, ou mesmo para a elucidação do significado psicológico essencial que buscamos. Sobre isso Franz nos fala:
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''Precisamos nos aproximar tanto quanto possível do caráter específico e determinado de cada imagem e tentar expressar o verdadeiro caráter específico da situação psíquica que ela contém.'' (1990, p.11).

Como exposto, o arquétipo não pode ser interpretado de maneira exclusivamente intelectual, pois ele é sim um pensamento padrão, mas, para além disso, o arquétipo também é uma experiência emocional que possui um elevado valor afetivo, do contrário o mito não poderia ter vida e significado para o indivíduo. Por essa razão, diferente do que acontece amiúde na ciência, a Psicologia deve levar em consideração o tom afetivo e o valor emocional dessas imagens e eventos simbólicos, o que inclui, inclusive, a reação afetiva do intérprete, nesse caso, estimado leitor, as minhas reações afetivas – para uma discussão epistemológica mais aprofundada sobre esse tema indico ao leitor o último texto do meu livro Impetus.

Um dos motivos para se interpretar (seja um sonho, contos de fadas, ou uma imagem simbólica em uma obra literária) é que a interpretação traz um pouco mais de objetividade, dessa forma o objeto a ser interpretado não trilha somente um estado de consciência já existente. Ou dito de outra forma, isso lhe abre novas perspectivas, algumas delas enriquecedoras para sua visão de mundo, para seu entendimento daquela obra específica, ou, para a percepção de que existem outras perspectivas! Há que se esclarecer que a interpretação é uma arte, Schleiermacher – um dos primeiros a propor uma hermenêutica universal – também afirmava que a interpretação se tratava de uma arte, no sentido em que ela possui regras, mas o uso dessas regras não pode ser confinado a regras, como no caso de uma aplicação mecânica. De acordo com Von Franz, essas regras que guiam a interpretação se baseiam na análise dos sonhos como proposta por Jung.

Começamos por observar o tempo/lugar em que se passa a história, em seguida examinamos as Dramatis Personae, passa-se a observar o início do problema e nesse ponto se procura definir o problema psicologicamente e entender a sua natureza, passa-se a examinar a peripeteia e o desfecho. O método consiste em observar a estrutura do material a fim de colocar um pouco de ordem.

Deve-se realizar uma análise do material comparativo, aquilo que Jung chamava de “método filológico” a fim de traçar o maior número possível de paralelos para que se possa amplificar o tema, por amplificar Jung compreendia alargar um tema por meio de numerosas versões análogas. Depois disso deve-se construir o contexto, ou seja, ao realizar uma amplificação, posso perceber de que maneira o objeto de que estou tratando se comporta de um modo específico, além disso, alguns paralelos me ajudam a compreender o meu objeto (o anel nesse recorte específico) e outros não, mas mesmo assim é bom perceber que essas outras conexões são possíveis e elas podem me ajudar a compreender a relação, do Um Anel, por exemplo, com outros elementos da narrativa. Segue-se, por fim, a parte final, e fundamental de uma análise dessa espécie, o trabalho de traduzir a história amplificada para a linguagem psicológica.

Finalmente respondendo a questão de por que se interpretar mitos e contos de fadas, ou obras de arte simbólicas. Segundo Jung é neles que melhor se pode estudar “anatomia comparada da psique”, nos mitos e lendas, por exemplo, obtêm-se as estruturas básicas da psique humana por intermédio do material cultural. Além disso, em termos práticos e tendo como horizonte a clínica psicológica, o método objetivo de interpretação dos sonhos pode ser melhor aprendido com a prática de interpretações como essa que realizo aqui. Há algo ainda, a interpretação permite que a mensagem simbólica contida nos mitos, lendas e contos de fadas seja melhor assimilada pela consciência, nesse sentido, presta-se um serviço a cultura como um todo e, ao mesmo tempo, às histórias. Não bastassem esses motivos, convém salientar ainda que um conteúdo arquetípico sempre se expressa primeiramente como metáfora. Quando o mito fala do sol e com ele forem identificados o leão, o rei, o ouro, não se trata nem de um nem de outro, mas de um terceiro desconhecido que se expressa mais ou menos adequadamente por meio dessas metáforas, mas que é impossível de ser formulado intelectualmente, pois nunca nos libertamos do fundamento arquetípico. Como não podemos anular os arquétipos a cada nova etapa da diferenciação cultural da consciência, somos confrontados com a tarefa de encontrar uma nova interpretação correspondente a essa etapa, com o intuito de conectar a vida do passado, que ainda habita em nós, com a vida do presente. Sem isso, sem essa nova interpretação que não permite que o presente se desgarre do passado, ou daquilo que é eterno, surge uma consciência privada de raízes, que sucumbe a todo o tipo de sugestão, como vemos hoje em dia de maneira corriqueira. No fundo, como asseverou von Franz, interpretamos pelo mesmo motivo que no passado se contavam mitos e contos de fadas: há um efeito vivificante que traz paz ao substrato inconsciente instintivo.
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O Um Anel surge em O Hobbit, quando Bilbo se perde dos anões e mergulha nas profundezas da montanha e ali descobre, em meio à densa treva, um lago em uma caverna inóspita e, no solo úmido e pedregoso, o anel de ouro que ele achou e escondeu em seu bolso. Momentos depois ele se defrontou, sem o saber, com aquele que fora o portador do anel por cerca de 500 anos, Gollum e, por intermédio de um jogo de adivinhas e da ajuda da magia do anel, escapou da gruta, dos goblins e de Gollum. Quando o anel surge, ele está largado como se fosse algo ordinário, mas logo revela o poder de tornar seu usuário invisível (a não ser por sua sombra) bem como, nota-se depois, confere a ele sentidos invulgarmente aguçados e uma longevidade fora do comum. Bilbo o utiliza como um de seus principais recursos, graças ao poder de invisibilidade ele escapa das masmorras do rei dos elfos, do dragão Smaug e realiza várias peripécias. De sua Nekya, sua descida as profundezas, ele traz um poder que o auxilia em sua jornada, mas esse peixe fisgado das profundezas é deveras ambivalente.

Inicialmente o Um Anel se revela invulgar por conceder invisibilidade, aos poucos se percebe que ele também dá ao seu portador sentidos aguçados e, sabemos depois, grande longevidade. Além disso, entretanto, ele tem uma personalidade, toma suas decisões e possui o desejo de se reunir ao seu mestre de quem guarda uma parte do poder e da alma, dito de outra forma, ele possui vontade própria, e, com ela, a capacidade de corromper quem quer que o toque – Peter Jackson interpretou isso como um vício em seus filmes. O material do qual ele é feito lembra o ouro, mas é quase indestrutível, e, sob altas temperaturas, revela sua inscrição luminosa feita na língua de Mordor. O Anel do Poder foi criado em segredo, como um estratagema para controlar os portadores dos outros anéis forjados por Sauron, ou mesmo aqueles criados pelos elfos utilizando dos sortilégios aprendidos com o servo de Melkor. Ele possui uma estreita vinculação com a morte e o mundo dos espíritos e fantasmas – como veremos – que na história se evidencia pela sua relação com os espectros, os Nazgul, sombras desmortas dos reis dos humanos corrompidos pelos anéis que receberam de Sauron, condenados a servir ao senhor do escuro e a sua vontade maligna.
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Fundamentalmente, o contato com o Anel do Poder, e com a vontade de Sauron que nele reside, leva seu portador a se confrontar com o mal, tanto o mal subjetivo que habita o seu coração, quanto com uma maldade objetiva e terrível, demoníaca e inumana, capaz de aniquilar a vontade mesmo dos seres mais poderosos da Terra-Média. O contato com esse mal, representado pelo Anel implica um confronto moral dos mais difíceis. Ninguém é capaz de resistir por muito tempo, e, mesmo Frodo, vacila no final.

Utilizando o método comparativo, o paralelo mais próximo que temos na cultura ocidental é o famoso anel de Gyges, descrito no livro dois da República de Platão. A fábula contada por Glauco em um debate com Sócrates acerca da justiça é uma alegoria para a natureza humana e sua inclinação natural em direção à justiça ou a injustiça. No referido debate, Glauco perguntou a Sócrates “o que é justiça”, Thrasymachus insistia que “poder é justiça”, pois a justiça é o interesse do mais forte, o que o mestre de Platão refuta. Glauco, entretanto, com essa alegoria, procura demonstrar o quão genuíno o cometimento das pessoas com a justiça pode ser. As semelhanças entre o alegórico anel presente no debate socrático e o anel imaginado por Tolkien são evidentes.

Na perspectiva de Glauco, os homens se mantêm no caminho da justiça apenas pela força da lei, mas se tivessem o poder de dar livre curso aos seus desejos eles assim o fariam, como no caso dessa história. Esse poder, de dar livre curso aos seus desejos e escapar a punição foi dado a Gyges ancestral de Croesus o lídio. Ele era um pastor a serviço do rei da Lídia. Um dia aconteceu uma grande tempestade seguida de um terremoto que abriu uma fenda no solo próximo ao local onde ele pastoreava o rebanho. Ele desceu pelo buraco na terra e encontrou uma “caverna das maravilhas” e, em meio a inúmeros tesouros encontrou um cavalo oco de bronze com portas e, ao abrir essas portas se deparou com um cadáver que parecia mais do que humano e estava ornado apenas com um anel de ouro. Gyges pegou para si este anel e subiu de volta ao seu pasto e as suas ovelhas. Rapidamente ele descobriu o poder de seu anel, ao virar a reentrância que existia no anel, talvez o local onde outrora existira uma gema, para dentro da sua mão ele se tornava invisível, ao colocar para fora ele voltava a poder ser visto por todos. De posse do anel ele se esforçou até conseguir ser um dos mensageiros enviados a corte do rei, lá chegando ele seduziu a rainha e, usando seu poder, assassinou o rei e tomou o trono para si. O argumento defendido por Glauco é o de que nenhum homem, justo ou injusto seria capaz de resistir à tentação de usar esse poder para satisfazer os seus desejos e escapar impune, pois, prossegue ele no argumento, as pessoas são justas devido à coerção que é imposta para que sigam a justiça, com o intuito de prover a sociedade de alguma regulação e ponto intermediário entre os fortes e os fracos. O homem dotado de tal poder, todavia, seria como um deus entre mortais, e daria livre curso a seus desejos sem se importar com a justiça, pois estaria livre de qualquer coerção externa.

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A fábula guarda similaridades também com a história de Aladdin, como veremos, mas no que concerne ao Anel do Poder, vemos que na história grega o acento se coloca sobre a natureza humana, naturalmente inclinada para a livre vazão de seus desejos (não de acordo com Sócrates, mas em consonância com Glauco e Thrasymachus), trata-se de um mal subjetivo, quase banal, e o anel mágico é apenas um meio de dar vazão a esse mal sem o medo de qualquer retaliação. Nas palavras do próprio Glauco, nenhum homem poderia se abster de roubar do mercado aquilo que desejasse, ou entrar nas casas e se deitar com quem lhe aprouvesse, soltar quem estivesse trancafiado na prisão ou matar impunemente. Dada à oportunidade e os meios adequados, qualquer homem agiria dessa forma. Na obra de Tolkien a perspectiva é um pouco diversa, o Um Anel ativamente corrompe quem o porta, e quanto mais poderoso o portador, mais fácil para que ele seja corrompido. Independente da natureza humana, o poder do Anel é ativamente maligno. É sutilmente indicado por Tolkien que a natureza das pessoas é susceptível a essa dominação, que o mal objetivo se casa com esse mal subjetivo para que ele alcance o seu nefasto desígnio e, em mais de um momento na obra, Tolkien aponta a ganância como um dos sentimentos utilizados pela vontade do anel para corromper. Sméagol foi seduzido pelo desejo ganancioso de possuir o anel brilhante e para isso mentiu e matou, a mera visão do anel bastou para corroer a sua alma. Em sua carta de número 181, Tolkien assim se referiu a Gollum “A dominação do Anel era grande demais para a alma mesquinha de Sméagol. Mas ele jamais teria de suportá-la se não tivesse se tornado um tipo de ladrão desprezível antes do artefato cruzar seu caminho.” (grifo meu).  Os anéis dos anões eram capazes de multiplicar a riqueza e isso os seduziu, já os reis humanos foram seduzidos com a promessa de terem acesso à poderosa feitiçaria. Assim como na fábula platônica, os desejos individuais e egoístas são o combustível para o mal, mas Tolkien vê a possibilidade de resistir quando há altruísmo e humildade, como no caso dos 3 hobbits que tiveram o anel em seu poder e não foram completamente corrompidos (em algum grau todos eles sofreram os efeitos nefastos do poder do Um Anel). Assim como Sócrates, Tolkien acreditava – e dá pistas disso em sua obra – em uma justiça objetiva, todavia ele não se esquiva de perceber que ao lado da luz existe a treva e que, para além da maldade subjetiva há um mal coletivo com o qual, em maior ou menor grau, todos temos de lidar (ou nos esquivamos ao máximo de fazê-lo). Além do aspecto de ser um anel mágico que confere invisibilidade, o anel da fábula grega trata fundamentalmente de um debate sobre a natureza humana (no intuito de descobrir o que significa justiça), o que é algo muito próximo do sentido psicológico essencial expresso por Tolkien em seus quatro livros. Perceba, estimado leitor, que Bilbo viveu por um bom tempo no castelo do rei dos elfos até poder libertar seus amigos, ele esteve invisível, roubava comida e soltou seus camaradas da cadeia (como Glauco argumentara), mas, ao final da história, envergonhado de seus dias como um ladrão invisível ele tenta pagar ao rei pela comida roubada, esse é um dos gestos fundamentais de Bilbo, e um grande ato de heroísmo.

Na história de Aladim, o jovem vagabundo é levado a entrar em uma “caverna das maravilhas” para encontrar uma lâmpada mágica. Aladim era o filho de um alfaiate e uma fiadora de algodão que vivia na China. Afeito aos trabalhos manuais se entregava a vadiagem e, tal desgosto isso provocava em seu velho pai que ele veio a falecer. Viveu como um vadio até os 15 anos, quando ele e sua mãe foram ludibriados pelo mago Mustafá, que o fez entrar na caverna onde estava a lâmpada maravilhosa munido do anel mágico. Aladim quase morre ao ficar preso na caverna e escapou graças aos sortilégios do gênio do anel (um djin) e, ao retornar para a sua velha mãe descobre o poder da lâmpada. Ambos, muito humildes e pouco ambiciosos passaram a viver vendendo prataria trazida pelo gênio, mantendo-se como pessoas modestas e sem se deixar deslumbrar pelos vastos poderes das criaturas místicas habitantes dos dois objetos. Sem grandes ambições vão vivendo até que Aladim se apaixona pela filha do sultão e usa os poderes dos gênios para lhe ganhar a afeição.
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Diferente da perspectiva de Glauco na República a posse de objetos tão maravilhosos não corrompeu Aladim, que nunca fora realmente ambicioso, mas, ao contrário, a experiência toda pareceu curá-lo de sua puerilidade e vagabundagem despreocupada, lhe facultando a entrada na vida adulta responsável e a possibilidade de casar-se. Nesse ponto, a narrativa das Mil e Uma Noites é um paralelo quase exato da obra de Tolkien. Bilbo, Sam e Frodo são seres simples, em seus corações não medra a ganância, mas o amor pelo júbilo, à amizade e os prazeres modestos de uma boa mesa e boa companhia. Em certo sentido, o anel e a lâmpada são habitados por espíritos poderosos dotados de vontade, eles são, todavia, escravos dos objetos. No caso do Um Anel ele é escravo apenas da vontade de Sauron e não há distinção entre o Anel e sua vontade e força espirituais como há claramente no caso de Aladim. Tanto o anel de Aladim quanto o Anel do Poder estão conectado a forças espirituais, no mínimo ambivalentes, a mãe de Aladim admoesta o filho, logo no início da história, a se livrar do anel e dos djins, pois segundo o profeta eles são demônios. No caso da obra de Tolkien, Sauron é uma força espiritual francamente maligna e, assim como os djin, seus poderes parecem ilimitados, nem mesmo os maiores poderes da Terra Média podem lhe fazer frente. Nos 3 casos (Gyges, Aladim e Sauron) o anel é um tesouro vindo de eras antigas, escondido debaixo da terra, em cavernas ocultas e com poderes insuspeitos. Gyges, Aladim e Bilbo tiveram que deixar para trás, ao menos temporariamente, o mundo da luz para descer a trevas da terra, ao mundo dos mortos, ou, para utilizar a fecunda expressão de Goethe “a terra das mães”.  É curioso notar que, assim como Bilbo, Aladim só é capaz de escapar das profundezas da terra graças ao poder do anel mágico e após se confrontar com Mustafá. Alguns dos elementos do fatídico episódio das “adivinhas no escuro” chamam a atenção, Bilbo estava em seu pior momento, perdido, cansado, separado de seus amigos e de Gandalf, cercado de inimigos por todos os lados, justamente nesse momento de desespero ele depara com o Anel. Com Aladim se dá algo similar, o gênio surge, e isso é importante, depois de passar dias enterrado quando ele apela para Alá, Jung disse que estar numa situação que não tem saída, ou em um conflito sem solução é o começo clássico do processo de individuação. Ambas as imagens são conotativas, metáforas de um fenômeno vivo de nossa alma. Quando nossa orientação consciente entra em colapso, quando tudo aquilo que temos e parecemos ser não nos pode mais levar adiante, e quando finalmente, em desespero, acossados pelas chamas dos afetos, nos damos conta de nossas limitações, aí então o inconsciente se manifesta, não simplesmente como um salvador, mas como um desafio, o desafio de encararmos aquilo que todos mais tememos: a totalidade. A criatura das profundezas, Gollum é uma imagem especular de Bilbo, sua estreiteza de consciência, pode ser vista pela metáfora da pequena ilhota onde vivia em meio ao lago (como asseverou certa feita Jung, a água é ao símbolo favorito do inconsciente) o espaço limitado da ilha é, em certa medida, o pouco que lhe resta de sua consciência, Gollum esqueceu até mesmo de seu nome, e vive nas trevas, longe da luz. O lago debaixo da terra é uma água estagnada, parada, habitada por peixes cegos e que jamais é tocada pelo vento, e isso é profundamente significativo. Bilbo se confronta, por meio de Gollum, com a solidão, o isolamento, a alienação de si mesmo, Gollum perdeu seu nome, ele perdeu a própria alma, é com essa possibilidade nefasta que Bilbo tem que se haver. Em termos psicológicos, esse isolamento, compreendido como metáfora de uma vivência interior, me leva novamente a falar da projeção, pois, como afirmou Jung no Aion, a projeção conduz a um isolamento do sujeito em relação ao mundo exterior, e a uma relação ilusória, um estado de auto-erotismo em que se sonha com um mundo cuja realidade é inatingível gerando um sentimento de incompletude, entretanto, o mais dramático é que quanto mais as projeções se interpõem entre o sujeito e o mundo exterior se torna cada vez mais difícil e árduo o trabalho de perceber suas ilusões.
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Esses dois momentos vividos por Bilbo e Aladim são representações dramáticas e pujantes desse momento de confronto. Não se iluda, estimado leitor, eles não são heróis à toa, há um preço elevado a se pagar por se tornar quem se verdadeiramente é, o herói é aqueleque, premido pela necessidade, acreditando em seu destino e designação e, com o auxílio indispensável de forças superiores, sejam deuses ou sua serpente interior, são capazes de arcar com esse preço elevado e abrir mão dessas ilusões.
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Na mitologia nórdica, amplamente conhecida e estudada por Tolkien, temos abundantes exemplos de anéis mágicos, inclusive anéis amaldiçoados. O anel Draupnir utilizado por Odin possuía o poder de gerar mais ouro, pois a cada nove dias ele produzia oito anéis de ouro de idêntico tamanho e peso ao dele mesmo.  Seu nome em nórdico antigo significa “o gotejador”, pois dele gotejam novos anéis de ouro. Esse anel foi forjado pelos irmãos anões Brokkr e Eitri. De acordo com a lenda, Loki os desafiou a produzir presentes mais incríveis para os Aesir do que os 3 presentes criados pelos filhos de Ivaldi, e apostou sua própria cabeça contra os 3 presentes maravilhosos. Os anões criaram Draupnir, Mjöllnir e Gburullinsti. No fim das contas o Martelo de Thor, Mjöllnir os fez vencer a aposta, mas Loki se safou dizendo que a aposta incluía apenas sua cabeça e, para os anões a removerem, teriam que ferir seu pescoço que não estava incluído na aposta. Irritados eles puniram Loki selando seus lábios com arame. O anel Draupnir foi colocado por Odin na pira funerária de Balder, o que reforça seu simbolismo associado à imortalidade, renascimento e fertilidade. Convém recordar que uma das qualidades buscada na lapis era a propriedade de produzir ouro.

Andvarinaut é o famoso anel dos Nibelungos, seu nome significa “dádiva de Andvari”, e possuía a faculdade de produzir ouro. Loki (novamente Loki) trapaceou Andvari para poder ter o anel, mas o anão se vingou amaldiçoando o anel (a maldição não é algo muito claro, o anel é uma fonte de infortúnio a todos que o possuírem, trazendo morte prematura), Loki, que estava com Thor e Odin matou por acidente o filho de Hreidmar rei dos anões Ort, como compensação ele deu ao rei o ouro e o anel amaldiçoado de Andvari em troca da libertação de Thor e Odin. A maldição foi rápida, o irmão de Ort, Fafnir, assassinou o próprio pai e se apossou do tesouro, se transformando em um dragão para guardá-lo. Sigurd (Siegfried) tempos depois abateu a fera e se assenhoreou do anel e do tesouro, posteriormente ele regalou a Brynhildr (Brünnehilde) com Andvarinaut. Temos novamente o tema da ganância associado à maldição, o apego a objetos materiais as expensas das relações humanas, da fraternidade e do amor, e uma fez mais a presença do espírito de contrafação Loki, com suas mentiras e artimanhas envolvido nas histórias dos anéis. Jung certa feita asseverou “tudo o que é autenticamente anímico tem uma dupla face: uma voltada para frente, outra para trás. Ela é ambígua e portanto simbólica, como toda realidade viva”. Existe, como podemos notar, uma clara relação dos anéis com a ganância, mas o outro lado da ganância é a abundância e a fertilidade, como vimos no caso do anel de Odin.

A parábola socrática dá conta de maneira muito precisa de muito do que está nesses paralelos, que seja, a relação desses anéis e seus poderes (ou maldições) com a natureza humana e a maneira como se relaciona com a justiça, a ganância e o poder. O desejo de possuir o Anel é um tipo de ganância, mesmo que travestido de um desejo nobre como no caso de Boromir. Na obra de Tolkien há um tema subjacente que é, a meu ver, uma tentativa de responder ao conceito de justiça de Thrasymachus: justiça é poder. Platão deplorava o modelo de heroísmo homérico, em que os guerreiros gregos que combatiam em Tróia acreditavam ser mais digno destruir e pilhar cidades para conseguir alimentos do que plantá-los, e deplorava o heroísmo de Aquiles, sua ira e ganância. A resposta platônica difere consideravelmente daquela fornecida pelos dois personagens: Glauco e Thrasymachus. Nessa perspectiva o bom e o belo, ao serem contemplados, ou recordados, levavam o homem naturalmente ao caminho do bem. No Hobbit o tema da ganância está em primeiro plano, mas, ligado de maneira inextricável a ele está o tema do poder e suas consequências, o que transparece com clareza na obra subsequente de Tolkien, na penosa jornada de Frodo.

Outros anéis mágicos surgem na literatura medieval, no romance arturiano do XII escrito por Chrétien de Troyes o Cavaleiro de Lyon, sir Yvain recebe de uma donzela um anel mágico que funciona exatamente como o anel de Gyges. As baladas escocesas Hind Horn e Bonny Bee, ambas apresentam, anéis mágicos que se tornam pálidos quando a pessoa que os recebeu perde a pessoa que os deu (novamente vemos aqui a relação com a morte). No romance arturiano do século XIV em inglês-médio Sir Perceval of Galles, o herói, sir Perceval, toma o anel de uma donzela adormecida em troca de seu anel e se mete depois em incríveis aventuras que incluem derrotar sozinho um exército de sarracenos em uma terra de donzelas, somente próximo ao fim do romance ele descobre que quem quer que use o anel adquire o poder de não ser morto. Anéis similares a esse de sir Perceval aparecem em outros romances, no romance medieval do século quatorze Sir Eglamour of Artois, Floris and Blancheflour do século XII, bem como no conto de sir Thomas Malory Sir Gareth of Orkney escrito no século XV em que Sir Gareth recebe de uma donzela de Avalon um anel que o tornaria invulnerável e impediria que morresse em um torneio devido aos sangramentos. Na coleção de contos Gaélicos chamada the Mabinogion há um romance chamado Geraint ab Erbin em que a personagem homônima encontra um anel que lhe confere o poder de invisibilidade.

Como se vê o caráter materno surge de maneira mais clara, ao invés da alusão à caverna ou à descida ao solo, aparecem donzelas que entregam o anel. No medievo, em virtude do amor cortês essa temática estava mais próxima da consciência coletiva, o que em parte explica o aspecto materno surgir personificado.

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Vários dos paralelos dão conta da proximidade dos anéis mágicos com o mundo dos espíritos, a capacidade de tornar seus portadores invisíveis está estreitamente relacionada ao mundo espiritual. Como é bem sabido, as coisas espirituais, benfazejas ou não, normalmente são invisíveis a visão ordinária e por isso, seres espirituais não podem ser vistos. Na história de Perseu, ele recebe o elmo de Hades (deus do mundo dos mortos) para enfrentar a górgona e este lhe dá o poder de se tornar invisível (como os fantasmas e espectros). A história de Perseu é um paralelo dos mais interessantes, não apenas no que concerne à invisibilidade, mas igualmente pelo fato dele se confrontar com um mal absoluto: a Górgona. Bastava olhar para a Medusa para ser convertido em pedra, ajudado pelos deuses ele a derrota e utiliza seu poder para engendrar uma transformação (mesmo decapitada seu poder nefasto ainda funcionava, decorrente da maldição de Athena) e, ao final, essa força maléfica tão terrível e desmedida é devolvida aos deuses. Contrariamente ao que julgava Glauco, esse poder absoluto que esteve nas mãos de Perseu não o corrompeu ou o fez acreditar-se um deus, pelo contrário, ele usa esse poder para restaurar o desequilíbrio causado pela desmedida de outrem e depois, humildemente, retorna a cabeça, as sandálias, a espada, o elmo e o alforje para a deusa de olhos glaucos.

Veja também: http://laminaecoracao.blogspot.com.br/2013/02/a-sombra-e-o-mal-no-hobbit-de-j-r-r.html

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